segunda-feira, junho 21, 2010

Alguém explique ao homem, por favor!

Goivanni Papini no seu livro "Relatório sobre o Homem" disse, e com muita razão, que uma das vantagens de ser néscio, é que não se tem a consciência de que se é! Portanto, haja alguém que tenha a paciência de com tempo e algumas ilustrações, explicar ao sr. Silva que o cargo para o qual foi eleito não é para envergonhar a república da qual é presidente, nem o povo que representa, e sim todo o contrário: dignificá-lo e elevá-lo. E que, no exercício dessas funções, que não têm horário, nem fins-de-semana, não existe espaço para os seus gostos e desgostos pessoais, muito menos para birras de menino malcriado. E que a maioria dos portugueses se levanta todas as manhãs para trabalhar (os que têm trabalho, obviamente), gostem ou não, e que através desse trabalho pagam impostos, e uma parte deles serve para lhe pagar o ordenado, e as mordomias inerentes, inclusivamente a viagem que o levou aos Açores, tenha ela sido paga com as mordomias ou com o ordenado.
Se isso consiste demasiado esforço para o sr. Silva, então o melhor seria despedir-se. Ser presidente da república é estar apto para dignificar e elevar o nome de Portugal e dos portugueses. Ou seja, exactamente o que fez José Saramago sem nunca ter sido presidente, e sem que ninguém lhe pedira. E numa dimensão que nem nos seus sonhos mais selvagens o sr. Silva poderia almejar.
Portanto, se o sr. Silva não está à altura de honrar o cargo para o qual foi eleito, o mais digno talvez seja voltar para o Poço (de Borratém), e deixar o cargo livre para alguém com competências para o efeito. Eu sei que é pedir muito a um mentecapto obtuso, a quem um dia houve alguém que teve a triste ideia de dar poder, mas pedir não custa. Vá lá! Alguém que se anime, e vá lá esclarecer o homem! Senão, não passamos disto, e o homem vai passar a vida toda enganado, pensando que é o rei do mambo!! Já viram bem a vergonha que estamos a passar diante de todos os digntários estrangeiros que vieram despedir-se de Saramago, e o homem não estava lá? Isso porque ninguém lhe explicou bem que as coisas não são como ele pensa, ou quer! Vão lá, e levem muitas ilustrações, senão ele vai-se aborrecer, e não perceber patavina. Ah, e tratem-no sempre por sr. presidente ou sr. professor que ele gosta é disso, e de outra maneira não estará receptivo a nada. Vá lá!

domingo, junho 20, 2010

Saramago e os Protozoários

A Burra quebra o seu silêncio de mais de um ano e meio, para fazer uma humilde e devida vénia de despedida ao génio do escritor José Saramago. Foi, é e será sempre uma figura incontornável do património cultural da humanidade. Muitos podem considerar o seu falecimento como uma grande perda, mas eu que não sou tão egoísta, prefiro pensar que a sua existência foi e é uma grande riqueza para todos nós.
Apesar de grande admirador da obra do escritor, nem sempre estive de acordo com o homem público e com as posições por ele tomadas, mas admirei e admiro a coerência férrea entre as suas opiniões e os seus actos.

Tristemente, a morte de uma figura como Saramago é sempre envolvida em polémica pelos que cá ficam, e principalmente pelos poderes políticos, que de uma maneira ou outra, quais aves necrófagas, sempre tentam tirar algum dividendo da situação. A polémica desta vez veio de antigas questões entre Saramago e o actual presidente da República, Cavaco Silva, e do seu ex-secretário de estado Sousa Lara, quando no princípio dos anos 90 vetaram o livro "O Evangelho segundo Jesus Cristo". Cavaco Silva não prestou homenagem na câmara ardente (espera-se que vá ao funeral), e Sousa Lara diz que voltaria a vetar o livro. Ora, é certo e sabido que os homens políticos primam na grande maioria das vezes pela estreiteza das suas ideias, o que não seria de muito incómodo se não fosse pelo poder que detêm para pô-las em práctica. Além desse estreiteza de ideias (que no caso das figuras supra citadas roçam o obtuso), têm deveres para com as maiorias que os elegeram, o que infelizmente põem acima dos deveres inerentes aos cargos que detêm, e para com a população no seu total. Já várias vezes referi que as maiorias nunca têm razão, e que os poucos avanços sociais e culturais da nossa sociedade se devem à tenacidade de estoicas minorias, mas parece que isso é muito fácil e confortável de esquecer.
Politicamente, José Saramago representou o oposto disso, e não foram poucas as vezes em que entrou em rota de colisão com o próprio partido pelo qual era eleito.
Quando "bateu de frente" contra os protozoários culturais que vetaram o seu livro, auto-exilou-se em Lanzarote, nas ilhas Canárias, onde viveu até falecer, na passada sexta-feira. No entanto, e isto é bom de salientar, Saramago manteve a sua residência oficial em Portugal, e continuou a declarar e a pagar os seus impostos em Portugal. Eu já não posso dizer o mesmo, embora comungue do sentimento que o levou às Canárias.

Foi ateu confesso e militante dizendo que todos os dias procurava sinais de deus, mas não os encontrava. Além disso, também se confessava anti-religioso, dizendo que as religiões embaceavam a visão das pessoas, o que concordo plenamente. Com isso, e um par de livros ("O Evangelho segundo Jesus Cristo" e o seu último "Caim") ganhou a férrea antipatia dos negros arcanjos de sotaina do Vaticano. Não será demais relembrar que no passado houve outros génios da nossa literatura que também chocaram de frente com os mafarricos de deus. Numa época em que ser excomungado era algo muito grave, o genial Guerra Junqueiro mereceu esse "prémio" pelo seu livro "A Velhice do Padre Eterno", que é o manifesto anti-clerical mais extraordinário que conheço. No entanto, ao contrário de Saramago, Junqueiro era um fervoroso crente, baseando nisso a sua contundência contra essa nefasta organização que é a Igreja Católica Apostólica Romana.

Apesar de eu não concordar em muitas coisas com José Saramago (entre elas a ideia de uma Iberia unida), uma personagem que despertava tamanhas antipatias da parte da classe política e da igreja, só pode merecer a minha mais profunda simpatia, e mais do que isso, a minha admiração.

Mais uma vez tenho diante de mim a imagem de minúsculas figuras políticas querendo pôr-se em bicos de pé diante da maiusculidade merecida de um homem cujo trabalho nos engradece a todos. E quando digo a todos, não digo só aos portugueses, nem aos lusófonos. A obra que nos deixa José Saramago é património de toda a humanidade, e como tal, deixa um mundo mais rico por ter existido. De muito poucos de nós se poderá dizer a mesma coisa, e seguramente nada dos protozoários políticos e religiosos que o louvam ou atacam.