sexta-feira, março 02, 2007

Facilidades & Impossibilidades

"A facilidade de falar, tem a ver com a impossibilidade de estar calado"


(não sei quem é que disse)

Normalidade, ou a Guerra dos Sexos

Os homens são todos iguais”, “as mulheres são todas iguais”. Segundo George Orwell, os animais são todos iguais, mas há uns que são mais iguais do que outros. No entanto, toda a gente nasce da mesma maneira. De um homem e de uma mulher. Mas, então...........................e os gays e as lésbicas? Ok, reformula-se, nem todos os homens são iguais, nem todas as mulheres são iguais. Quando muito jovens, os homens e as mulheres têm o primeiro grande teste de sobrevivência em sociedade: ser aceite pelos seus pares. Os miúdos pelos miúdos, e as miúdas pelas miúdas. Um miúdo que se dá com miúdas é mariquinhas (nem que seja a própria irmã). Uma miúda que se dá com rapazes é uma maria-rapaz (nem que seja o próprio irmão). Quem não corresponde às expectativas do grupo é cruelmente excluído (é sabido o quão crueis podem ser as crianças). Os anos passam, um rapaz que se dá com raparigas tem saída. Uma rapariga que se dá com rapazes anda saída. Anos mais tarde, um homem que se relaciona maioritariamente com mulheres é gay. Uma mulher que se relaciona maioritariamente com homens é puta. Os excluidos, os eternamente excluidos eventualmente encontram o seu caminho para a felicidade. Caminho esse que acredito que seja o primeiro direito/dever que temos para connosco próprios, homens ou mulheres. Mas dos excluidos já muito se falou e fala. E acerca dos incluidos? Para os incluidos tudo é normal, vivem dentro da normalidade, e actuam em coerência com aquilo que aprenderam dentro dos seus grupos, os homens com os homens, e as mulheres com as mulheres. Mas se ainda não foi notado, a normalidade é um dado estatístico. Quanto mais pessoas houver a actuar de uma mesma maneira, mais normal se torna. Quando foi “legalizado” o divórcio (sim, o divórcio já foi um dia ilegal, tanto como o aborto, e as drogas leves), os primeiros divorciados sofreram um ostracismo atroz da parte dos seus pares. Hoje, têm a compaixão da sociedade, tornou-se portanto, normal. Portanto, passado o primeiro embate de uma nova atitude perante a sociedade, e aguentados todos os insultuosos ataques da mesma, a quantidade de aderência a essa nova atitude, determina se ela passará a ser normal, ou não. Mas voltando à normalidade dos incluidos na sociedade, pergunto-me se essa normalidade tem alguma conotação com a verdade. Porque como dizia Göebbels, o chefe da propaganda nazi do III Reich “Uma mentira repetida muitas vezes, torna-se verdade”. Normalidade igual a verdade? Primeiro dizem-nos que fumar é estar na moda, e quando toda a gente fuma, dizem-nos que provoca o cancro. Primeiro dizem-nos que temos que ganhar muito dinheiro para comprar muita coisa, e agora dizem-nos para não ser tão consumistas porque estamos a esgotar os nossos recursos naturais. Normalidade igual a verdade? Então porque é que a maioria dos homens não percebe nada de mulheres, e a maioria das mulheres não percebe nada de homens? Porque é que as mulheres esperam que todos os homens se comportem de uma mesma maneira, e logo se queixam que eles são todos iguais? Porque é que os homens esperam que as mulheres se comportem todas da mesma maneira, e logo se queixam que elas são todas iguais? Não é isso que é pretendido à partida quando excluem do seu ciclo aqueles que não são normais, sejam gays, lésbicas, ou simplesmente que não se identifiquem com posturas sexistas? Só estou a perguntar, mais nada! Não se enervem!

Ou será que nos sentimos mais seguros connosco próprios quando nos sentimos melhores do que os outros? E na impossibilidade de elevar-nos acima dos outros, cortamos-lhes as pernas, e mandamo-los para baixo, como tão bem o ilustram as anedotas cretinas sobre pretos, ciganos, alentejanos, louras, judeus, tripeiros, lisboetas, brasileiros, portugueses, americanos, ou o que seja que esteja na moda?

Desengane-se quem pensa que com a idade ficamos mais tolerantes à diferença: é mentira! Não ficamos mais tolerantes, ficamos é mais cínicos, isso sim. Como as jovens famílias de classe média daqui, que não deixam os filhos irem brincar para a rua com as outras crianças imigrantes, mas adoptam uma criancinha do 3º mundo, para mostrar aos amigos o quão mente aberta são. Francamente, isto anda a tocar as raias da esquizofrenia colectiva. Depois eu é que sou maluco! O Tom Zé (procurem no Wikipedia ou no Google quem é, se vos interessar) tem uma frase que eu acho fantástica: “Faça as suas orações 3 vezes por dia, depois mande a sua consciência junto com os lençois para a lavandaria”

Mas estávamos a falar de pessoas normais. De homens normais para quem a mulher perfeita deve ser uma mistura entre uma mãe e Angelina Jolie. De mulheres normais para quem o homem perfeito deve ser uma mistura entre pai e Brad Pitt. Qualquer coisa de errado se passou com as mães desses homens, e os pais dessas mulheres, penso eu.

Quantas vezes, depois de estar a falar com uma amiga minha, não tive que ouvir a fantástica frase, que me deixava sempre mudo e quedo: “Ouve lá! Andas a comer aquilo??” Ao ouvir esta frase vinha-me sempre o suave calor carinhoso de um pelotão de skinheads de botas cardadas a passar por cima de mim e da minha amiga.

Eu confesso! Sou homem, sou heterossexual, já passei o que as pessoas normais chamam “a barreira dos 40”, e talvez por isso eu esteja em crise, e precise da vossa ajuda. Alguém me explica o que é, e como é ser normal? É que por vezes tenho um pesadelo horroroso, em que eu e uns quantos amigos meus, somos enfermeiros de um gigantesco hospício chamado normalidade.

Pessoalmente sempre tive fracas esperanças na minha condição de pessoa normal, mas depois de ler o Cântico Negro do José Régio, foi mesmo tudo por água abaixo, e vi-me ao espelho pela primeira vez.

Um muito querido amigo meu, tem duas frases que me serenizam a mente:

1- “Cada um tem que cumprir o seu destino”

2- “Isso não tem importância absolutamente nenhuma”

Bem hajas, João