sexta-feira, julho 01, 2005

A pensar na morte da bezerra

Já quase no final do 3º disco da trilogia “Joe’s Garage”, Frank Zappa (glória a ti nas alturas), pôs uma rapariga a dizer um texto que começava mais ou menos assim: “informação não é conhecimento, conhecimento não é sabedoria, sabedoria não é beleza, beleza não é amor...” e continuava. E realmente todos estes anos tenho pensado na extraordinária capacidade que o ser humano tem para armazenar informação. Mas será que ao armazenar toda essa informação, essa se converte automaticamente em conhecimento? Partindo do princípio que temos por natureza uma mente catalogante e "carimbante", inclino-me a pensar que sim, que podemos organizar essa informação de forma a constituir algo chamado conhecimento. E a sabedoria? É apenas o substantivo que designa o saber muito? Saber muito acerca de quê?
Pratico um desporto solitário sempre que posso, e chama-se pensar. Pensar sobre quê? Sobre tudo, mais que não seja para manter o neurónio com um corpinho danone, já que sou incapaz de fazê-lo ao resto do corpo. Bom, mas resumindo. Numa dessas sessões de ginásio pensante, debrucei-me sobre a profundidade dessa frase do Zappa. E uma conclusão que cheguei (absolutamente passível de erro, como todas as conclusões), é que a sabedoria é muito mais do que um simples estado em que uma pessoa é detentora dum qualquer conhecimento. A sabedoria seria a maneira como esse conhecimento é aplicado e practicado, necessitando para o efeito de uma componente importantíssima, que nos dias que correm está em baixa vertiginosa: o senso comum. Pior ainda, o senso comum, apesar de ser algo tipicamente humano, escapa completamente à tendência também tipicamente humana de quantizar, medir e catalogar, o que representa um contra-senso. Qual a diferença então entre conhecimento e sabedoria? Um exemplo práctico: foi necessário uma quantidade absurda de conhecimento para fabricar a bomba atómica, nenhuma sabedoria para lançá-la sobre Hiroshima, e nenhuma explicação lógica, inteligente e minimamente plausível para lançá-la sobre Nagasaki.
Então a componente senso-comum é de vital importância para que a sabedoria funcione. Mas, e o que é o senso-comum? Um conjunto imaginário de regras? Um código de conduta? Um conjunto mais ou menos inconsciente de valores para determinar o que está bem ou o que está mal?
Bom de qualquer das maneiras, pode ser discutível, e até anedótico, inútil, ridículo e absurdo discutir a essência do senso-comum, quando o mesmo está em vias de extinção. E, ao abrigo da teoria acima descrita, com ele extinguir-se a sabedoria. Pelo menos a sabedoria segundo estes parâmetros. A sabedoria segundo a quantidade de coisas que um indivíduo sabe, essa segue, mas se esse mesmo indivíduo não sabe o que fazer com isso, de pouca utilidade tem. Em que é que ficamos?

P.S.- Aqui não se censura os comentários de ninguém, por mais absurdos que sejam.

2 comentários:

Rogério Charraz disse...

Meu Caro,

Plenamente de acordo. Mas o essencial, no meu entender, é de facto perceber o que é isso do senso comum. E isso dá "pano para mangas". É difícil aprofundar tamanho assunto em poucas linhas. Gostava apenas de dizer que para mim o conceito de senso comum está muito ligado à ideia de respeito pelo próximo. Ou seja, a análise que devemos fazer permanentemente para perceber se o que dizemos e o que fazemos prejudica terceiros e se isso é inevitável ou fruto de excesso de amor próprio ou egocentrismo.
Não há nenhuma solução para a resolução dos problemas que assolam a nossa sociedade que não passe pela maior preocupação com o bem estar dos outros e pela relativização do "eu" como valor absoluto. É a minha opinião.

Rogério Charraz

Isabel Campelo disse...

Pois eu tenho a dizer que concordo com o Rogério: para mim, o senso comum tem muito a ver com aquilo que há bem pouco tempo ouvi chamar de "quality of the heart", essa qualidade que nos faz entender as coisas não tanto com o intelecto, mas com a sabedoria que o coração nos dá, quando noas dispômos a abri-lo. Relativizando o "eu" como valor absoluto, deixando a nossa mente de lado, assim como o nosso super-ego, disponibilizando-nos para o "outro" inteiramente. E, já agora, o que para mim distingue a informação do conhecimento é a experiência: se não pômos em prática muita da informação que nos chega, ela pura e simplesmente vai-se...e, nalguns casos, é uma pena, noutros não (não sou da opinião de que o saber não ocupa lugar; ocupa e de que maneira, sobretudo se não serve para nada!)
Beijos e beijinhos