segunda-feira, junho 20, 2005
O Grande Irmão
A memória, é realmente curta. Lá diz o velho ditado “Morreu o rei! Viva o rei!”. No dia de Stº António, desapareceu Àlvaro Cunhal, e dias antes Vasco Gonçalves. Pessoas de inquestionável relevância política, há precisamente 30 anos atrás. Do Vasco Gonçalves já quase ninguém se lembrava, do Àlvaro Cunhal a ideia do eterno líder do PCP. Quem é que se lembra da passagem fugaz, mas nem por isso inofensiva, destas duas personagens, pelo governo de Portugal, então uma recém-nascida democracia? Quem se lembra da maneira como chegaram ao dito governo? Quem se lembra do 11 de Março de 1975? Quem se lembra das nacionalizações à bruta? Quem se lembra dos saneamentos à bruta? Quem se lembra da caça às bruxas dos "inimigos do proletariado" (leia-se, toda a gente que não era militante do PCP)? Quem se lembra dos desastrosos processos de descolonização, entregando tendenciosamente o poder aos movimentos de libertação marxistas-leninistas, sem recurso a um periodo de transição, e a eleições livres? Quem se lembra que em consequência disso resultaram as guerras civis de Angola, Moçambique e Timor-Leste, esta última finalizando com a ocupação indonésia e com aquilo que já se sabe? Quem se lembra das centenas de milhares de portugueses que tiveram que fugir dessas ditas guerras civis, quase só com a roupa que levavam, e ao regressar a Portugal, ainda tiveram que aguentar a humilhante e vergonhosa alcunha de “retornados”? Quem se lembra de todos os mortos e feridos dessas guerras civis (maioritariamente mulheres e crianças)? Quem se lembra da ruinosa política económica que esse governo levou a cabo, deixando o país à beira da bancarrota? Quem se lembra de que esse governo quase nos levou à guerra civil? Alguém se lembra de alguma destas coisas, porventura, antes de fazerem os discursos de circunstância a exaltar o carácter e valor dos falecidos? Não nego, nem esqueço o papel primordial que o PCP desempenhou no tempo da ditadura, combatendo-a feroz e heroicamente, mas esse papel não lhe deu o direito de fazerem o que fizeram estas duas personagens durante o chamado "verão quente" de 1975. Mais duas personagens a quem não serão imputados crimes de lesa-pátria, nem crimes contra a humanidade.
sexta-feira, junho 10, 2005
ONG
O meu amigo Eugenio Arnao de Saragoça(cuja fronha já apareceu nesta página junto à minha, coitado), que trabalhou na América Central com as chamadas ong's, deu-me uma definição curiosa da mesma: "uma ong, são uns tipos que, quando estás numa ilha deserta morto de fome e de sede, te oferecem um telemóvel para pedir uma pizza e uma coca-cola". Claro que haverá excepções (como em todas as regras), mas tenho a mesma sensação. Que raios! Nunca mais se vai embora o "políticamente correcto", e as coisas voltam ao seu sítio! É que a burra anda à nora! O cowboy afinal não é tão bonzinho assim, o mau-da-fita também não é assim tão mau, e a rapariga tem tendências bissexuais.
A propósito, parece que aqui os bispos estão a organizar uma manifestação contra os casamentos homossexuais. É curioso como a igreja católica põe tanto empenho em impedir que duas pessoas se amem e sejam felizes, e tão pouco em impedir que as pessoas se odeiem e se matem!
Beijinhos ao sargento-ajudante
A propósito, parece que aqui os bispos estão a organizar uma manifestação contra os casamentos homossexuais. É curioso como a igreja católica põe tanto empenho em impedir que duas pessoas se amem e sejam felizes, e tão pouco em impedir que as pessoas se odeiem e se matem!
Beijinhos ao sargento-ajudante
segunda-feira, junho 06, 2005
O Quarto Poder
Na sexta-feira passada tive uma experiência curiosa. Todas as manhãs me levanto relativamente cedo, por volta das 7 da manhã, para acordar o meu rebento, dar-lhe pequeno-almoço e mandá-lo para a escola. A minha cara-metade tem o mau vício de acender a televisão, assim que acorda. A coisa não é tão má assim, porque o canal escolhido é a TV3, a televisão da Catalunha, um canal generalista, falado em catalão. Desde que vim para cá, das primeiras vezes, a TV3 constituiu para mim, uma fonte de aprendizagem do catalão, mas também se tornou, uma referência a nível europeu do que é um canal de televisão generalista de qualidade. Não é que seja sumamente extraordinário, mas as alternativas são tão más, que a TV3 sobressai por manter os "mínimos olímpicos" de qualidade.
A essa hora dá um programa que ocupa toda a franja horária da manhã, chamado "Els Matins de TV3" (As manhãs da TV3), programa que algumas vezes sigo, pois é um espaço de tertúlia, e de entrevistas bastante interessante, onde se tratam com alguma seriedade, temas da actualidade, seja ela local, nacional, europeia, ou mundial. Em suma, um espaço televisivo, onde, pasme-se, impera um certo bom-senso. Durante a semana passada, falou-se bastante sobre a violência, e mais precisamente a violência dos jovens, por causa de 2 acontecimentos nefastos, em 2 pontos diferentes da Catalunha, que levaram à morte de 2 jovens por esfaqueamento. Normalmente nesse programa põe-se uma pergunta aos espectadores, que podem responder através de telefone, sms ou email. Utilizei este último meio para dar a minha opinião sobre o assunto. A pergunta era "os jovens de hoje estão mais violentos do que antes?". Acto seguido recebi uma resposta ao email, pedindo um contacto telefonico, que obviamente facilitei. No dia seguinte, recebi uma chamada da TV3 para convidarem-me a participar no debate que haveria na sexta-feira, sobre o assunto. E, claro que concordei em ir, porque acredito que a participação neste tipo de iniciativas, pode inclusivamente ser um acto mais político do que votar. Votar é uma decisão mais ou menos influenciada, assistir a um debate pode fazer as pessoas pensar (o que hoje em dia é um perigo).
O debate correu lindamente, mas mais pela qualidade dos intervenientes, do que propriamente pela acção moderadora da jornalista, a quem ninguém fez o mais mínimo caso. E porquê? Porque a dita jornalista e co-apresentadora do programa, estava mais interessada em criar uma peixeirada para ter um acontecimento espectacular no seu programa, do que propriamente tratar de um tema verdadeiramente importante. E o mau-gosto foi maior, quando para o referido debate convidaram o pai de um rapaz morto à saida do liceu, aqui há quase 2 anos. Acabaram por se dizer coisas muito importantes por parte de todos os intervenientes, cujo leque era tão diversificado como psicólogos, professores, jovens estudantes, mães, pais, especialistas em comportamento e representantes de associações de okupas (malta que ocupa edifícios abandonados). Para desespero da jornalista (que não parava de fazer sinais a animar-nos à discussão), estávamos de acordo em practicamente todos os pontos discutidos.
Bom, tudo isto serviu-me para reflectir sobre variadas coisas. Uma delas é eu sentir-me cada vez melhor numa sociedade activamente pensante, e constructivamente crítica. A outra é sobre o papel dos media. E aqui começo a corroborar a designação de 4º poder, no sentido de que, como qualquer outro poder institucional, desenvolve-se unidireccionalmente, sem direito a resposta, e sem responsabilidade ou responsabilização. Já não é suficiente informar, tem que se informar com espectáculo, ainda que se toque a irresponsabilidade e o mau-gosto. Neste preciso contexto, não se dão conta de quanto mais se fala dos bandos deliquentes, mais estes cobram força, e notariedade. À saída do debate, conversando com um dos intervenientes, professor catedrático, este disse-me que os grupos de skinheads mantém um ranking de importância derivado das vezes que são referidos nos media. Será que os media não aprenderam a lição do que se passou em Los Angeles no princípio dos 90? Concordo que a brutalidade policial sobre Rodney King, devia ser denunciada, mas os custos da emissão das imagens do espancamento foi aquilo que se viu. Alguém se lembra, também no princípio dos 90, da imprensa portuguesa (há falta de material noticioso) ter inventado um problema nacional racista, e com isso quase que tínhamos um problema sério que não tínhamos até então? Os jornalistas, igual que os políticos, já não têm nenhum sentido de responsabilidade? Ou a que têm é para com os seus superiores?
Ninguém entende que há coisas na sociedade, que pela sua essência não podem ser mercantilizadas, ou (mais politicamente correcto) rentabilizadas, sob pena de serem uma negação em si mesmo, e por outro lado, uma ameaça à mesma sociedade? O jornalismo e a cultura são duas delas. O jornalismo pelo que acabo de contar, e a cultura, porque sem ela não há identidade, e sem identidade, não há verdadeiramente sociedade, há um conjunto de pessoas que vivem juntas, pela força das circunstâncias.
Continuo a ver "Els Matins de TV3", mas agora um pouco mais desiludido.
A essa hora dá um programa que ocupa toda a franja horária da manhã, chamado "Els Matins de TV3" (As manhãs da TV3), programa que algumas vezes sigo, pois é um espaço de tertúlia, e de entrevistas bastante interessante, onde se tratam com alguma seriedade, temas da actualidade, seja ela local, nacional, europeia, ou mundial. Em suma, um espaço televisivo, onde, pasme-se, impera um certo bom-senso. Durante a semana passada, falou-se bastante sobre a violência, e mais precisamente a violência dos jovens, por causa de 2 acontecimentos nefastos, em 2 pontos diferentes da Catalunha, que levaram à morte de 2 jovens por esfaqueamento. Normalmente nesse programa põe-se uma pergunta aos espectadores, que podem responder através de telefone, sms ou email. Utilizei este último meio para dar a minha opinião sobre o assunto. A pergunta era "os jovens de hoje estão mais violentos do que antes?". Acto seguido recebi uma resposta ao email, pedindo um contacto telefonico, que obviamente facilitei. No dia seguinte, recebi uma chamada da TV3 para convidarem-me a participar no debate que haveria na sexta-feira, sobre o assunto. E, claro que concordei em ir, porque acredito que a participação neste tipo de iniciativas, pode inclusivamente ser um acto mais político do que votar. Votar é uma decisão mais ou menos influenciada, assistir a um debate pode fazer as pessoas pensar (o que hoje em dia é um perigo).
O debate correu lindamente, mas mais pela qualidade dos intervenientes, do que propriamente pela acção moderadora da jornalista, a quem ninguém fez o mais mínimo caso. E porquê? Porque a dita jornalista e co-apresentadora do programa, estava mais interessada em criar uma peixeirada para ter um acontecimento espectacular no seu programa, do que propriamente tratar de um tema verdadeiramente importante. E o mau-gosto foi maior, quando para o referido debate convidaram o pai de um rapaz morto à saida do liceu, aqui há quase 2 anos. Acabaram por se dizer coisas muito importantes por parte de todos os intervenientes, cujo leque era tão diversificado como psicólogos, professores, jovens estudantes, mães, pais, especialistas em comportamento e representantes de associações de okupas (malta que ocupa edifícios abandonados). Para desespero da jornalista (que não parava de fazer sinais a animar-nos à discussão), estávamos de acordo em practicamente todos os pontos discutidos.
Bom, tudo isto serviu-me para reflectir sobre variadas coisas. Uma delas é eu sentir-me cada vez melhor numa sociedade activamente pensante, e constructivamente crítica. A outra é sobre o papel dos media. E aqui começo a corroborar a designação de 4º poder, no sentido de que, como qualquer outro poder institucional, desenvolve-se unidireccionalmente, sem direito a resposta, e sem responsabilidade ou responsabilização. Já não é suficiente informar, tem que se informar com espectáculo, ainda que se toque a irresponsabilidade e o mau-gosto. Neste preciso contexto, não se dão conta de quanto mais se fala dos bandos deliquentes, mais estes cobram força, e notariedade. À saída do debate, conversando com um dos intervenientes, professor catedrático, este disse-me que os grupos de skinheads mantém um ranking de importância derivado das vezes que são referidos nos media. Será que os media não aprenderam a lição do que se passou em Los Angeles no princípio dos 90? Concordo que a brutalidade policial sobre Rodney King, devia ser denunciada, mas os custos da emissão das imagens do espancamento foi aquilo que se viu. Alguém se lembra, também no princípio dos 90, da imprensa portuguesa (há falta de material noticioso) ter inventado um problema nacional racista, e com isso quase que tínhamos um problema sério que não tínhamos até então? Os jornalistas, igual que os políticos, já não têm nenhum sentido de responsabilidade? Ou a que têm é para com os seus superiores?
Ninguém entende que há coisas na sociedade, que pela sua essência não podem ser mercantilizadas, ou (mais politicamente correcto) rentabilizadas, sob pena de serem uma negação em si mesmo, e por outro lado, uma ameaça à mesma sociedade? O jornalismo e a cultura são duas delas. O jornalismo pelo que acabo de contar, e a cultura, porque sem ela não há identidade, e sem identidade, não há verdadeiramente sociedade, há um conjunto de pessoas que vivem juntas, pela força das circunstâncias.
Continuo a ver "Els Matins de TV3", mas agora um pouco mais desiludido.
terça-feira, maio 31, 2005
Defeito ou feitio?
“Veja-se nesta descrição a loucura com que se carregou o galeão Santiago, depois apresado pelos holandeses:
Trazia este galeão, só no porão, quatro mil quintais de pimenta; e no corpo da nau e debaixo da ponte e em cima dela, na tolda, no chapitéu, sobre o batel, no sítio do cabrestante e no convés eram tantos os caixões de fazenda e fardos ao cavalete, que não cabia uma pessoa nele. E até por fora do costado, pelas postiças e mesas de guarnição, vinham fardos, e camarotes formados, como todas estas naus costumam, de tal maneira que se não podiam nele marear as velas, e dezoito dias se não pôde andar com o cabrestante. E sobretudo se embarcaram nele perto de trezentas almas, entre nautas, oficiais e alguns soldados ordinários e escravos e como trinta pessoas fidalgas e nobres [...]■?
O que fez exclamar aos holandeses, depois de tomado o navio:
Dizei, gente portuguesa, que nação haverá no mundo tão barbara e cobiçosa que cometa passar o cabo de Boa Esperança na forma que todos passais, metidos no profundo mar com carga, pondo as vidas a tão provável risco de as perder, só por cobiça; e por isso não é maravilha que percais tantas naus e tantas vidas”
in História Trágico-Marítima de Bernardo Gomes de Brito
(relatos do sec. XVI, publicados no sec. XVIII)
“Estamos perdidos há muito tempo...O país perdeu a inteligência e a consciência moral.Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.Os caracteres corrompidos.A prática da vida tem por única direcção a conveniência.Não há princípio que não seja desmentido.Não há instituição que não seja escarnecida.Ninguém se respeita.Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.Alguns agiotas felizes exploram.A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.O povo está na miséria.Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.Diz-se por toda a parte, o país está perdido!Algum opositor do atual governo? Não!” Eça de Queirós escreveu isto em 1871.
“...mas esse tempo que há-de vir não se espera como a noite espera o dia
nasce da força que transpira de braços e pernas em harmonia
já basta tanta desgraça que a gente tem no peito a cair
não é do povo nem da raça, mas do modo como vês o porvir
que atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir”
Fausto Bordalo Dias, in Atrás dos Tempos
P.S.- O texto do Eça foi-me gentilmente enviado por email, pelo amigo Francisco Naia, a quem mando um abraço.
Trazia este galeão, só no porão, quatro mil quintais de pimenta; e no corpo da nau e debaixo da ponte e em cima dela, na tolda, no chapitéu, sobre o batel, no sítio do cabrestante e no convés eram tantos os caixões de fazenda e fardos ao cavalete, que não cabia uma pessoa nele. E até por fora do costado, pelas postiças e mesas de guarnição, vinham fardos, e camarotes formados, como todas estas naus costumam, de tal maneira que se não podiam nele marear as velas, e dezoito dias se não pôde andar com o cabrestante. E sobretudo se embarcaram nele perto de trezentas almas, entre nautas, oficiais e alguns soldados ordinários e escravos e como trinta pessoas fidalgas e nobres [...]■?
O que fez exclamar aos holandeses, depois de tomado o navio:
Dizei, gente portuguesa, que nação haverá no mundo tão barbara e cobiçosa que cometa passar o cabo de Boa Esperança na forma que todos passais, metidos no profundo mar com carga, pondo as vidas a tão provável risco de as perder, só por cobiça; e por isso não é maravilha que percais tantas naus e tantas vidas”
in História Trágico-Marítima de Bernardo Gomes de Brito
(relatos do sec. XVI, publicados no sec. XVIII)
“Estamos perdidos há muito tempo...O país perdeu a inteligência e a consciência moral.Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.Os caracteres corrompidos.A prática da vida tem por única direcção a conveniência.Não há princípio que não seja desmentido.Não há instituição que não seja escarnecida.Ninguém se respeita.Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.Alguns agiotas felizes exploram.A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.O povo está na miséria.Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.Diz-se por toda a parte, o país está perdido!Algum opositor do atual governo? Não!” Eça de Queirós escreveu isto em 1871.
“...mas esse tempo que há-de vir não se espera como a noite espera o dia
nasce da força que transpira de braços e pernas em harmonia
já basta tanta desgraça que a gente tem no peito a cair
não é do povo nem da raça, mas do modo como vês o porvir
que atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir”
Fausto Bordalo Dias, in Atrás dos Tempos
P.S.- O texto do Eça foi-me gentilmente enviado por email, pelo amigo Francisco Naia, a quem mando um abraço.
quinta-feira, maio 26, 2005
Ele há coisas...........
Ele há coisas do destino, que sempre nos surpreende. Contagiado pelo salutar vício deste pessoal de ler livros, tenho andado a ler e a reler os poucos livros que tenho cá em português (tenho que comprar mais quando volte a Lisboa). Uma das últimas vezes que estive em Lisboa, comprei alguns para ter cá. Um deles de poesia do António Gedeão, e outro de prosa do Al Berto. A compra deste último livro teve uma história de há cerca de 10 anos. Andava eu com o João Ferreira a tocar pelos bares um pouco por toda a geografia nacional, quando o acaso nos levou a um barzito em Sines, vila que só conhecia de passagem. Adorei o centro histórico, e também o ambiente familiar do bar. Acabei fazendo amizade com o dono, o Valentim, que ao mesmo tempo era dono de uma loja de fotografia. Nesse ambiente familiar, depois de termos tocado, ficámos até ao amanhecer a comer linguiça assada, cervejas, e muita e boa conversa, como só os alentejanos sabem proporcionar. E as anedotas, rápidas, de humor aguçado e inteligente, as melhores. Como dizia, nesse ambiente familiar conheci um homem, que pelo discurso era alguém com bastante cultura, mas ao mesmo tempo com bastante vida vivida. Foi delicioso estar toda a noite a dar à língua, falando de tudo um pouco, desde política, a filosofia, ao futebol. Nas vezes seguintes, quase sempre o mesmo programa.
Assim como por acaso fomos parar a Sines, também um dia, por acaso, deixei de ir a Sines, por uma temporada longa. E quando voltei, de imediato perguntei por aquela personagem: "então e o Alberto?", ao que me responderam, " ninguém te contou? O Alberto morreu aqui há uns meses!". Senti como se tudo aquilo que eu sorvi naquelas noites, se cristalizasse e partisse dentro de mim. Essa noite foi diferente, já não houve petiscada e cerveja e conversa pela noite fora, pois a tristeza tinha-me tirado a vontade.
Anos depois, nessa livraria onde comprei os livros, vejo um livro com a fotografia desse meu amigo, e cheguei à conclusão de que o Alberto que eu conheci, era o Al Berto. Já tinha ouvido falar dele como escritor e poeta, mas nunca o suficiente para levar-me a interessar pelo seu trabalho. Armado de um estúpido sentimento de culpa, comprei o livro, e até agora já o li e reli umas 5 vezes. Não sei se é autobiográfico, ou se é uma biografia de uma vida que ele gostaria de ter vivido, e nem sequer estou preocupado com isso. Fala de gente livre, de gente que vive voluntáriamente fora do mundo, ou que encontrou o seu conforto (ainda que momentâneo) nesse lugar que é a noite. A noite, da qual eu fui habitante há muitos anos, e onde conheci muitas personagens iguais à deste livro. O livro chama-se "Lunário", e eu tenho saudades daquelas poucas, mas fantásticas conversas com o Alberto, até ao amanhecer. Também tenho saudades de tocar com o João Ferreira, que de o ver tocar comigo, me ensinou muito mais do que ele pensa.
Assim como por acaso fomos parar a Sines, também um dia, por acaso, deixei de ir a Sines, por uma temporada longa. E quando voltei, de imediato perguntei por aquela personagem: "então e o Alberto?", ao que me responderam, " ninguém te contou? O Alberto morreu aqui há uns meses!". Senti como se tudo aquilo que eu sorvi naquelas noites, se cristalizasse e partisse dentro de mim. Essa noite foi diferente, já não houve petiscada e cerveja e conversa pela noite fora, pois a tristeza tinha-me tirado a vontade.
Anos depois, nessa livraria onde comprei os livros, vejo um livro com a fotografia desse meu amigo, e cheguei à conclusão de que o Alberto que eu conheci, era o Al Berto. Já tinha ouvido falar dele como escritor e poeta, mas nunca o suficiente para levar-me a interessar pelo seu trabalho. Armado de um estúpido sentimento de culpa, comprei o livro, e até agora já o li e reli umas 5 vezes. Não sei se é autobiográfico, ou se é uma biografia de uma vida que ele gostaria de ter vivido, e nem sequer estou preocupado com isso. Fala de gente livre, de gente que vive voluntáriamente fora do mundo, ou que encontrou o seu conforto (ainda que momentâneo) nesse lugar que é a noite. A noite, da qual eu fui habitante há muitos anos, e onde conheci muitas personagens iguais à deste livro. O livro chama-se "Lunário", e eu tenho saudades daquelas poucas, mas fantásticas conversas com o Alberto, até ao amanhecer. Também tenho saudades de tocar com o João Ferreira, que de o ver tocar comigo, me ensinou muito mais do que ele pensa.
segunda-feira, maio 23, 2005
Preguiça
Plena primavera. A minha 40ª primavera tem um sabor especial. Voltam as bermudas, as t-shirts e os chinelos-de-enfiar-o-dedo (conhecidos no Brasil pelo nome mais curto de "sandálias havaianas"). A temperatura que se mantém teimosamente acima dos 20º. Ontem, primeiro dia de praia do ano, com o meu pimpolho. Barceloneta estava quase cheia, o sol ameno, mas aconchegante, a salmora que se agarra à pele. Muito rabo, muito peito ao léu, que alegria para a vista! O passeio de ida e volta em bicicleta. Paragem no Passeio do Born, por insistência do Sérgio, para comer uma pizza nos argentinos (a melhor da cidade), coroada com um belo gelado italiano. Finalmente chega a época de sair da minha gruta de hibernação, e recomeçar a viver. É que, ainda que eu me quisesse esquecer, o meu corpo, desde sempre, me lembra que sou um animal, e mamífero, por sinal. E os mamíferos hibernam! Passei todo o inverno numa semi-existência, como se o mundo que me rodeia fosse um filme com qual eu não tenho nada a ver.
Voltando à praia, não me lembro há quanto tempo estava tanto tempo disfrutando de não fazer rigorosamente nada. Parece que para algumas pessoas é extremamente difícil não fazer nada. Para mim, sempre foi muito fácil, neste caso, foi só entregar o meu corpo à areia, e deixar o sol servir de cobertor, ao som das ondas. Bom, ao som das ondas e dos pregões dos paquistaneses que vendiam "cervesa, beer, fanta, coca-cola", e de umas chinesas que passavam oferecendo os seus serviços de massagistas. Por acaso não ia nada mal, uma massagem, mas tinha que me virar de costas, e não estava para isso, fica para a próxima. De repente veio-me à memória os pregões da praia de quando eu era pequeno: a língua da sogra, o olá fresquinho (frutóxculate), há bolinhos. Continuei de olhos fechados, a ouvir os diversos sons que vinham de redor, embalando-me para um estado de semi-sonolência, a que o calor do sol não era alheio. Que gostinho! Nem com uma grua me arrancavam dali!
Voltando à praia, não me lembro há quanto tempo estava tanto tempo disfrutando de não fazer rigorosamente nada. Parece que para algumas pessoas é extremamente difícil não fazer nada. Para mim, sempre foi muito fácil, neste caso, foi só entregar o meu corpo à areia, e deixar o sol servir de cobertor, ao som das ondas. Bom, ao som das ondas e dos pregões dos paquistaneses que vendiam "cervesa, beer, fanta, coca-cola", e de umas chinesas que passavam oferecendo os seus serviços de massagistas. Por acaso não ia nada mal, uma massagem, mas tinha que me virar de costas, e não estava para isso, fica para a próxima. De repente veio-me à memória os pregões da praia de quando eu era pequeno: a língua da sogra, o olá fresquinho (frutóxculate), há bolinhos. Continuei de olhos fechados, a ouvir os diversos sons que vinham de redor, embalando-me para um estado de semi-sonolência, a que o calor do sol não era alheio. Que gostinho! Nem com uma grua me arrancavam dali!
quinta-feira, maio 12, 2005
1º de Mãe?
Há cerca de 500 anos atrás, um rapaz lá das bandas do que hoje se conhece por Itália, escreveu um livro no qual fazia uma análise dos meandros do poder lá do seu sítio. Há muitos anos encontrei esse livro perdido lá por casa dos meus pais, e resolvi dar-lhe uma vista de olhos, e imediatamente passou a ser meu fiel companheiro das idas à casa-de-banho. Não pelo conteúdo do livro, obviamente, mas por ser o espaço de tempo de serenidade, solidão e concentração que tinha para lhe dedicar, embora o livro merecesse uma abordagem bastante mais dignificante. Mas como dizem por estas bandas, "es lo que hay!"
Uma das frases do livro (entre outras) que me ficou gravada foi "o poder protege-se a si próprio". E não é que o rapaz tinha razão! Tenho reparado que depois de anos de suposta luta política entre as mais variadas facções e ideologias, tudo se começou a amenizar, e lentamente se começou a instalar o morninho "politicamente correcto". E eis que hoje em dia, quase sem nos darmos conta, vivemos em plena era do "politicamente correcto", algo que desde já há uns 10 anos me vem dando uma repulsa subcutânea, nauseas, vómitos, e outros desconfortos que tais. Todos os políticos são bonzinhos, honrados, abnegados, bem-educados, correctos, e sobretudo, politicamente correctos. Quase que me dá saudade do Almirante Pinheiro de Azevedo, que nos deixou de legado frases tão díspares como "o povo é sereno!" e "ó minha senhora, vá à merda!", este último piropo dedicado a uma pobre jornalista que lhe fez uma pergunta incómoda. Mas pelo menos, o rapaz não tinha papas na língua, e chamava os bois pelos nomes.
Hoje em dia, há muitas coisas que já não são politicamente correctas, e uma delas são as manifestações "esquerdalhas", principalmente aquelas que incomodamente têm agenda marcada, como a semana santa esquerdista que vai do 25 de Abril ao 1º de Maio. Num afã para se proteger a si mesmo, o poder nunca olha a meios para atingir os seus fins, e passados os tempos das imposições (não é politicamente correcto), estamos nos tempos das diversões. Diversões não no sentido de divertir o pessoal, mas sim de distrair. Distrair o pessoal para coisas que não têm nada a ver com o essencial, mas que enchem o olho.
E então chega-se ao cúmulo de transferir o dia da Mãe, para o primeiro de Maio. Dia da Mãe no 1º de Maio? Dia da Mãe no 1º de Maio? Mas que disparate é este? Obviamente que o resultado está à vista: mãe há só uma, 1º de Maio também, mas como mãe é mãe, que se lixe o 1º de Maio. E assim se vai apagando a memória colectiva de coisas que o povo devia lembrar sempre. Embora duvide que a grande maioria das pessoas saiba o quê e porquê se celebra o 1º de Maio. Muitas delas devem pensar que é uma grande festa que sempre se fez na Rússia, e que nasceu no tempo da União Soviética.
Vem-me também à memória, que no 25 de Abril do ano passado, rectificaram a palavra revolução para evolução. Mas que palhaçada vem a ser esta? Eu sei que muita da culpa têm alguns partidos de esquerda por se terem assenhorado destas duas efemérides, mas o facto é que anda a tentar branquear a memória de um património humano, que pertence a todos nós. E um povo sem memória, é um povo sem história, sem referências, sem identidade. É nisso que nos estamos a tornar? Em meros consumidores, sem passado, nem futuro, que existem apenas?
Bem, resta-me elucidar o paciente leitor destas linhas, que o rapaz italiano chamava-se Nicolau Maquiavel, e que o seu nome é mais conhecido pelo pejorativo (desta vez acertei, Isabel) adjectivo maquiavélico , e o livro em causa chama-se O Príncipe (não confundir com o Principezinho de Saint-Exupery). Resta-me também desaconselhar a leitura na cagadeira, porque o hemorroidal ressente-se.
Beijos a quem de beijos, abraços a quem de abraços
Uma das frases do livro (entre outras) que me ficou gravada foi "o poder protege-se a si próprio". E não é que o rapaz tinha razão! Tenho reparado que depois de anos de suposta luta política entre as mais variadas facções e ideologias, tudo se começou a amenizar, e lentamente se começou a instalar o morninho "politicamente correcto". E eis que hoje em dia, quase sem nos darmos conta, vivemos em plena era do "politicamente correcto", algo que desde já há uns 10 anos me vem dando uma repulsa subcutânea, nauseas, vómitos, e outros desconfortos que tais. Todos os políticos são bonzinhos, honrados, abnegados, bem-educados, correctos, e sobretudo, politicamente correctos. Quase que me dá saudade do Almirante Pinheiro de Azevedo, que nos deixou de legado frases tão díspares como "o povo é sereno!" e "ó minha senhora, vá à merda!", este último piropo dedicado a uma pobre jornalista que lhe fez uma pergunta incómoda. Mas pelo menos, o rapaz não tinha papas na língua, e chamava os bois pelos nomes.
Hoje em dia, há muitas coisas que já não são politicamente correctas, e uma delas são as manifestações "esquerdalhas", principalmente aquelas que incomodamente têm agenda marcada, como a semana santa esquerdista que vai do 25 de Abril ao 1º de Maio. Num afã para se proteger a si mesmo, o poder nunca olha a meios para atingir os seus fins, e passados os tempos das imposições (não é politicamente correcto), estamos nos tempos das diversões. Diversões não no sentido de divertir o pessoal, mas sim de distrair. Distrair o pessoal para coisas que não têm nada a ver com o essencial, mas que enchem o olho.
E então chega-se ao cúmulo de transferir o dia da Mãe, para o primeiro de Maio. Dia da Mãe no 1º de Maio? Dia da Mãe no 1º de Maio? Mas que disparate é este? Obviamente que o resultado está à vista: mãe há só uma, 1º de Maio também, mas como mãe é mãe, que se lixe o 1º de Maio. E assim se vai apagando a memória colectiva de coisas que o povo devia lembrar sempre. Embora duvide que a grande maioria das pessoas saiba o quê e porquê se celebra o 1º de Maio. Muitas delas devem pensar que é uma grande festa que sempre se fez na Rússia, e que nasceu no tempo da União Soviética.
Vem-me também à memória, que no 25 de Abril do ano passado, rectificaram a palavra revolução para evolução. Mas que palhaçada vem a ser esta? Eu sei que muita da culpa têm alguns partidos de esquerda por se terem assenhorado destas duas efemérides, mas o facto é que anda a tentar branquear a memória de um património humano, que pertence a todos nós. E um povo sem memória, é um povo sem história, sem referências, sem identidade. É nisso que nos estamos a tornar? Em meros consumidores, sem passado, nem futuro, que existem apenas?
Bem, resta-me elucidar o paciente leitor destas linhas, que o rapaz italiano chamava-se Nicolau Maquiavel, e que o seu nome é mais conhecido pelo pejorativo (desta vez acertei, Isabel) adjectivo maquiavélico , e o livro em causa chama-se O Príncipe (não confundir com o Principezinho de Saint-Exupery). Resta-me também desaconselhar a leitura na cagadeira, porque o hemorroidal ressente-se.
Beijos a quem de beijos, abraços a quem de abraços
terça-feira, maio 10, 2005
Anjo da Guarda
Depois de tanto tempo a correr de um lado para o outro, parece que agora quero pôr a escrita em dia.
Por vezes há situações em que tenho que agradecer eternamente ao meu anjinho da guarda por me ter salvo de determinada situação. E a última passou-se durante o mês passado, quando uns 2 dias antes de que João Paulo II esticasse o pernil, acendo a televisão a meio de uma das minhas insonias, e esta deu um peido e morreu. A sorte foi dupla, pois a garantia expirava no final do mês. Assim, depois de algumas semanas de tv no estaleiro, volto a ligar, e no Vaticano já há outro papa. Resta dizer que durante essas semanas ouviu-se muito mais música em casa, e conversou-se muito mais, e na rua ia vendo o pessoal rosnando porque não conseguiam ver mais nada na televisão, senão o funeral do papa, e a eleição do novo.
A propósito de assuntos papais, o meu amigo Zé Neto já me tinha advertido acerca deste Ratzinger. E realmente ter como papa, aquele que anteriormente foi o chefe do Santo Ofício, não dá lá muito boa onda. Mais a mais, o homem é suspeitamente parecido com mestre Sith (mestre de Darth Vader) da Guerra das Estrelas. Má onda, má onda! Parecenças por parecenças, prefiro o Jordi Pujol (ex-presidente da Generalitat da Catalunha) que é a cara chapada do mestre Yoda! Tem o grave defeito de ser de direita, mas pelo menos é catalanista!
Por vezes há situações em que tenho que agradecer eternamente ao meu anjinho da guarda por me ter salvo de determinada situação. E a última passou-se durante o mês passado, quando uns 2 dias antes de que João Paulo II esticasse o pernil, acendo a televisão a meio de uma das minhas insonias, e esta deu um peido e morreu. A sorte foi dupla, pois a garantia expirava no final do mês. Assim, depois de algumas semanas de tv no estaleiro, volto a ligar, e no Vaticano já há outro papa. Resta dizer que durante essas semanas ouviu-se muito mais música em casa, e conversou-se muito mais, e na rua ia vendo o pessoal rosnando porque não conseguiam ver mais nada na televisão, senão o funeral do papa, e a eleição do novo.
A propósito de assuntos papais, o meu amigo Zé Neto já me tinha advertido acerca deste Ratzinger. E realmente ter como papa, aquele que anteriormente foi o chefe do Santo Ofício, não dá lá muito boa onda. Mais a mais, o homem é suspeitamente parecido com mestre Sith (mestre de Darth Vader) da Guerra das Estrelas. Má onda, má onda! Parecenças por parecenças, prefiro o Jordi Pujol (ex-presidente da Generalitat da Catalunha) que é a cara chapada do mestre Yoda! Tem o grave defeito de ser de direita, mas pelo menos é catalanista!
segunda-feira, maio 09, 2005
25 de Abril Póstumo
Passou-se o 25 de Abril, e passou-se o 1º de Maio, e eu nem me dei conta. Lembro-me do 25 de Abril de 1974, e do 1º de Maio desse ano. Lembro-me da esperança, da felicidade, da alegria de todo um povo que alcançou a liberdade. Lembro-me da liberdade andar na boca de toda a gente, mas de ninguém explicar exactamente o que isso era, realmente. A definição mais corrente era " a liberdade, é eu fazer aquilo que me apetecer!". Lembro-me de todas as promessas, das promessas de que doravante tudo seria diferente. De um futuro sorridente para as crianças, que seriam os homens de amanhã. Eu era uma dessas crianças, e tenho a grande satisfação do 25 de Abril me ter permitido falar aquilo que me apetece..............................falar para as paredes...............................num país estrangeiro!
Zaragoza
Na passada terça-feira, a tournée dos Elefantes levou-me a Saragoça, cidade pela qual já tinha passado ao largo diversas vezes, mas nunca tinha tido tempo nem calma necessários para entrar. Fiquei maravilhado com o ambiente da cidade. Por curiosidade tinha levado comigo o contacto de Eugenio Arnao, o percussionista do grupo de música tradicional aragonesa "La Orquestina del Fabirol", os quais tinha conhecido na mágica ilha de Stª Maria, nos Açores, aquando dó Festival Maré d'Agosto em 1997. Na altura eu ia com o grupo "Lindu Mona". Liguei por descargo de consciência, e para meu espanto, o rapaz ainda se lembrava de mim. Convidei-o para assistir ao concerto dessa noite, e como repetiríamos no dia seguinte, combinámos almoço. Passei um dia magnífico, conhecendo a cidade pela mão de um conhecedor, que além do mais, revelou-se um desses seres humanos que é necessário ter por companhia uma vez por outra, para descermos à terra. Eugenio tem luz própria e uma vida, vida. Daquelas vidas, que por mais fascinante que pensemos que a nossa é, fica muito fosca ao lado da dele. Prometi a mim mesmo voltar.
O teatro onde tocámos era fantástico, e esteve a abarrotar as duas noites. E o público aragonês super-carinhoso. Prometi a mim mesmo, voltar.
O teatro onde tocámos era fantástico, e esteve a abarrotar as duas noites. E o público aragonês super-carinhoso. Prometi a mim mesmo, voltar.
domingo, maio 01, 2005
De novo na estrada
Quando há dois anos e meio vim para Barcelona, disse para comigo mesmo que gostaria de passar uns 2 anos sem ir para estrada. Que gostaria de estar, pelo menos 2 anos no mesmo sítio. Isto porque as anteriores experiências com a Ala dos Namorados e Portugal a Cantar, me fizeram estar um pouco cansado de estar permanentemente em viagem. Atenção, foram experiências muito recompensadoras, e guardo gratas memórias de ambos os projectos!
Assim parece que o meu anjinho da guarda, ouvi e anuiu ao meu pedido, e passei tranquilamente estes últimos dois anos, com uma que outra saída a Andorra, ou França, mas em geral, sempre me fiquei trabalhando aqui na cidade, ou nos arredores.
Pois, parece que esse periodo acabou, e mais uma vez volto à estrada, desta vez como músico convidado do grupo pop "Los Elefantes" (www.elefantes.net). Os primeiros concertos em Valencia, Madrid e Barcelona, foram muito bem. Na próxima semana será Saragoça, 2 dias no teatro principal.
O ambiente de trabalho é extraordinário. Normalmente quando se levam uns quantos anos trabalhando juntos, o ambiente tende-se a adensar, e a confiança tende a ser abusiva (pelo menos era ao que eu estava habituado). Mas aqui parece que não, há bastante sentido de humor, mas também muito carinho uns pelos outros, e sempre há uma palavra gentil e de ânimo de alguém para alguém. E penso que isso é um dos ingredientes-chave para o êxito deste grupo. Toda essa cordialidade que se vive dentro do grupo, transpira para o público, na hora de gravar um disco, ou de fazer um concerto. O público agradece e retribui. Sempre me pareceu a maneira mais natural e inteligente de estar nesta profissão.
Esta semana tive um convite para algo que há muito tempo tinha muita vontade de fazer: uma banda sonora para um filme! Bem, será uma curta-metragem de 7 minutos, mas já é alguma coisa. Ainda consegui "impingir" o Sérgio como actor, pois precisavam de crianças, e ele há já algum tempo que diz que gostaria de ser actor. Pois agora terá opurtunidade de saber na pele o que custa o trabalho de actor. A rodagem será no dia 14 de Maio. O trabalho é para a Universidade de Barcelona, e fará parte de uma mosra de curtas-metragens, durante o mês de Junho.
Assim parece que o meu anjinho da guarda, ouvi e anuiu ao meu pedido, e passei tranquilamente estes últimos dois anos, com uma que outra saída a Andorra, ou França, mas em geral, sempre me fiquei trabalhando aqui na cidade, ou nos arredores.
Pois, parece que esse periodo acabou, e mais uma vez volto à estrada, desta vez como músico convidado do grupo pop "Los Elefantes" (www.elefantes.net). Os primeiros concertos em Valencia, Madrid e Barcelona, foram muito bem. Na próxima semana será Saragoça, 2 dias no teatro principal.
O ambiente de trabalho é extraordinário. Normalmente quando se levam uns quantos anos trabalhando juntos, o ambiente tende-se a adensar, e a confiança tende a ser abusiva (pelo menos era ao que eu estava habituado). Mas aqui parece que não, há bastante sentido de humor, mas também muito carinho uns pelos outros, e sempre há uma palavra gentil e de ânimo de alguém para alguém. E penso que isso é um dos ingredientes-chave para o êxito deste grupo. Toda essa cordialidade que se vive dentro do grupo, transpira para o público, na hora de gravar um disco, ou de fazer um concerto. O público agradece e retribui. Sempre me pareceu a maneira mais natural e inteligente de estar nesta profissão.
Esta semana tive um convite para algo que há muito tempo tinha muita vontade de fazer: uma banda sonora para um filme! Bem, será uma curta-metragem de 7 minutos, mas já é alguma coisa. Ainda consegui "impingir" o Sérgio como actor, pois precisavam de crianças, e ele há já algum tempo que diz que gostaria de ser actor. Pois agora terá opurtunidade de saber na pele o que custa o trabalho de actor. A rodagem será no dia 14 de Maio. O trabalho é para a Universidade de Barcelona, e fará parte de uma mosra de curtas-metragens, durante o mês de Junho.
Ainda o Respeitinho
Ainda acerca do tema do respeito, há ainda as pessoas que confundem respeitar com submissão, ou subserviência. Vem-me à lembrança as minhas primeiras aulas de judo, onde me ensinaram que na vénia de saudação ao adversário, nunca se baixa a cabeça. Sempre se fita os olhos do adversário. É uma saudação e não uma submissão, portanto baixar a cabeça seria sinal de submissão.
segunda-feira, abril 04, 2005
Safar
Existe um verbo português que me parece fazer parte do imaginário colectivo português, e mais do que isso, parte da genética portuguesa. Senhoras e senhores, eis o verbo SAFAR. A maior parte dos portugueses não vive, vai-se safando. Há malta (como eu) que se safou à tropa. Uma pessoa que teve sorte na vida, safou-se. Pelo que me apercebi, a maioria dos portugueses acha que a fuga de Durão Barroso para Bruxelas não foi um crime de lesa-pátria, mas uma coisa muito natural pois afinal, como toda a gente, o rapaz anda-se a safar. Várias pessoas já me têm dito, que eu é que fui esperto, pois safei-me bem ao vir para Barcelona. Sempre ouvi dizer que os portugueses safam-se em qualquer parte do mundo. Também se diz que com um curso universitário um gajo safa-se melhor. Nunca ninguém me explicou bem o verdadeiro e amplo significado deste verbo, mas associo-o à acção de escapar ileso de alguma situação desagradável, e quase inevitável, e além de ileso, escapar sem grande esforço, ou por um golpe de sorte. O que não faz grande sentido para mim é quando um povo prefira ir-se safando a viver. Não só pela consequência gramatical do particípio passado do verbo, que convertido em adjectivo, dá o desagradável e prejorativo resultado de safado, mas principalmente pelo o que isso significa moral e psicologicamente. Ou seja, uma pessoa não trabalha para materializar os seus ideais, e consegue-o..............isso não! É mais simples dizer que se safou. Quer isso dizer que somos um povo de safados? Em vez de se construir um país como manda a sapatilha, vamos safando a coisa? A malta só não se safa aos impostos se não puder? Porquê? Porque temos um estado que se vai safando à conta dos muitos que não podem, ou não querem safar-se porque preferem viver? E com isso safa os seus protegidos? Cada um safa-se como pode, como se vivessemos à séculos num barco a afundar lentamente. E em vez de se aproveitar toda a energia criadora e empreendedora para safar esse barco, prefere-se passar sem ela, “para não criar muitas ondas”, pois a coisa já está suficientemente má.
Cabe-me elucidar a toda a gente que lhe interesse que a única coisa da qual me safei (e não é pouca coisa) foi da luta diária pelo respeito que me é devido apenas por ser pessoa. Parece que o português se sente melhor consigo mesmo quando humilha os outros. De resto, tive que recomeçar a minha vida do zero, numa idade em que a maior parte das pessoas está mais ou menos instalada (ou entalada) na vida. E não me vou safando. Vou fazendo algo que instintivamente sempre soube que seria assim.....viver. E viver implica construir coisas, não safá-las. Provavelmente houve outra coisa de que me safei: do “safe-se quem puder!”
Beijinhos a todos
Cabe-me elucidar a toda a gente que lhe interesse que a única coisa da qual me safei (e não é pouca coisa) foi da luta diária pelo respeito que me é devido apenas por ser pessoa. Parece que o português se sente melhor consigo mesmo quando humilha os outros. De resto, tive que recomeçar a minha vida do zero, numa idade em que a maior parte das pessoas está mais ou menos instalada (ou entalada) na vida. E não me vou safando. Vou fazendo algo que instintivamente sempre soube que seria assim.....viver. E viver implica construir coisas, não safá-las. Provavelmente houve outra coisa de que me safei: do “safe-se quem puder!”
Beijinhos a todos
segunda-feira, março 14, 2005
Respeitinho é muito bonito
A distância também tem as suas vantagens. Inevitávelmente ao viver noutro país têm-se uma tendência infantil para as comparações, quando nada é comparável com nada. Faz parte desse exercício ao qual nos habituamos desde pequenos, a procurar referências que nos dêem um ponto de apoio seguro. Uma vez mais, a eterna busca da segurança.
Como a grande maioria (senão totalidade) dos portugueses, sofro essa quase mítica relação amor-ódio com o país. Cada um relaciona-se com isso como pode. Uns através da eterna queixa, outros através da rebeldia, outros através do comodismo, e outros através das mais coloridas e bizarras maneiras possíveis (afinal somos ou éramos um povo criativo). Ouvi ou li não sei onde que uma pessoa faz-se velha não pela idade, mas porque pára de perguntar porquê. E eu tento sempre exercitar essa questão que nos domina desde a infância. E a minha maneira de me relacionar com esse amor-ódio é exactamente perguntar-me “porquê?”.
Ao dar aulas de português fui dando-me conta de uma série de coisas interessantes, afinal a maneira como um povo se expressa através do seu idioma diz bastante acerca da psicologia colectiva desse mesmo povo.
Bom, juntando as comparações com o amor-ódio e as aulas de português, surgiu-me uma questão à qual tentei dar resposta: Porque é que em Portugal há um crescendo da utilização do “você”, e em Espanha essa tendência é quase porporcionalmente inversa? Podia justificá-lo com a opressão dos anos de ditadura, mas seria inválido, pois a Espanha também passou por isso. A única coisa que me ocorreu foi a questão do respeito. E pensando bem sobre o assunto, hoje em dia dá-me a sensação que temos uma relação um pouco errónea com o respeito. Por exemplo, somos capazes de aceitar e admitir (embora impotentes) que a administração do país pague tarde e a más-horas (o que é uma tremenda falta de respeito), quando exige exactamente o contrário de todos (ou quase todos) os cidadãos, apenas pelo facto de sermos tratados com algumas honrarias verbais. Ou seja, o ser tratado por Exmo Senhor, suaviza o facto de sermos desrespeitados. Por outro lado, se alguém desconhecido nos trata por tú, sentimo-nos indignados pela desfaçatez, e a pergunta que nos assoma de imediato é: “este conhece-me de algum lado, para tratar-me por tú?”. Ainda que essa pessoa tenha na realidade a melhor das intenções, e que o facto de “tutear” demonstre afecto pela intimidade e pelo respeito, essa pessoa já está, à partida, estigmatizada pela alegada falta de respeito inicial de tratar-nos por tu. O “você” marca uma suposta distância de segurança em relação ao interlocutor. O que para mim é verdadeiramente incompreensível é marcar essa distância com os próprios filhos, por mais moda que seja.
Um outro exemplo, é como ao longo dos tempos o discurso dos políticos foi substituindo a palavra “povo”, pela palavra “cidadãos”. Claro, porque “povo” já soa um pouco a revolucionário rasca, e já fora de moda, mas “cidadãos” é muito mais moderno, europeu, e sobretudo, respeituoso. E um português sente-se bem ao ser referido como um cidadão, sobretudo quando acompanhado de “de pleno direito”. Ainda que na realidade se tenha um “pleno dever”, e sejam postas sucessivas e graduais barreiras ao “pleno direito”, a maneira como se fala de nós (povo ou cidadão) influencia substancialmente na hora de escolher os governantes. Inevitavelmente esses governantes caem na falta de respeito aos seus votantes, e aos outros também, mas tudo se limpa com um honrado e sempre conveniente pedido de demissão, como se com isso se sanasse todo o mal causado pela incompetência ou negligência desses governantes. Na verdade, errar é humano, mas 30 anos de sucessivos erros governamentais, começa a ser desumano.
Aqui há um ditado que diz que o movimento se demonstra andando. E talvez no dia em que os portugueses comecem a dar menos importância ao suposto respeito verbal, e comecem a dar mais importância ao respeito demonstrado pelas acções, talvez se esteja no bom caminho para exigir uma classe política em condições, de pessoas verdadeiramente abnegada, com vontade de servir o país, mais do que a eles próprios. Pode ser muito dramático da minha parte, mas ultimamente tenho assistido a tantos crimes de lesa-pátria, por parte da classe política, que mais do que responsabilidades políticas, exigiria responsabilidades criminais. Ou o pessoal vai aturar para sempre o “quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”?
Como a grande maioria (senão totalidade) dos portugueses, sofro essa quase mítica relação amor-ódio com o país. Cada um relaciona-se com isso como pode. Uns através da eterna queixa, outros através da rebeldia, outros através do comodismo, e outros através das mais coloridas e bizarras maneiras possíveis (afinal somos ou éramos um povo criativo). Ouvi ou li não sei onde que uma pessoa faz-se velha não pela idade, mas porque pára de perguntar porquê. E eu tento sempre exercitar essa questão que nos domina desde a infância. E a minha maneira de me relacionar com esse amor-ódio é exactamente perguntar-me “porquê?”.
Ao dar aulas de português fui dando-me conta de uma série de coisas interessantes, afinal a maneira como um povo se expressa através do seu idioma diz bastante acerca da psicologia colectiva desse mesmo povo.
Bom, juntando as comparações com o amor-ódio e as aulas de português, surgiu-me uma questão à qual tentei dar resposta: Porque é que em Portugal há um crescendo da utilização do “você”, e em Espanha essa tendência é quase porporcionalmente inversa? Podia justificá-lo com a opressão dos anos de ditadura, mas seria inválido, pois a Espanha também passou por isso. A única coisa que me ocorreu foi a questão do respeito. E pensando bem sobre o assunto, hoje em dia dá-me a sensação que temos uma relação um pouco errónea com o respeito. Por exemplo, somos capazes de aceitar e admitir (embora impotentes) que a administração do país pague tarde e a más-horas (o que é uma tremenda falta de respeito), quando exige exactamente o contrário de todos (ou quase todos) os cidadãos, apenas pelo facto de sermos tratados com algumas honrarias verbais. Ou seja, o ser tratado por Exmo Senhor, suaviza o facto de sermos desrespeitados. Por outro lado, se alguém desconhecido nos trata por tú, sentimo-nos indignados pela desfaçatez, e a pergunta que nos assoma de imediato é: “este conhece-me de algum lado, para tratar-me por tú?”. Ainda que essa pessoa tenha na realidade a melhor das intenções, e que o facto de “tutear” demonstre afecto pela intimidade e pelo respeito, essa pessoa já está, à partida, estigmatizada pela alegada falta de respeito inicial de tratar-nos por tu. O “você” marca uma suposta distância de segurança em relação ao interlocutor. O que para mim é verdadeiramente incompreensível é marcar essa distância com os próprios filhos, por mais moda que seja.
Um outro exemplo, é como ao longo dos tempos o discurso dos políticos foi substituindo a palavra “povo”, pela palavra “cidadãos”. Claro, porque “povo” já soa um pouco a revolucionário rasca, e já fora de moda, mas “cidadãos” é muito mais moderno, europeu, e sobretudo, respeituoso. E um português sente-se bem ao ser referido como um cidadão, sobretudo quando acompanhado de “de pleno direito”. Ainda que na realidade se tenha um “pleno dever”, e sejam postas sucessivas e graduais barreiras ao “pleno direito”, a maneira como se fala de nós (povo ou cidadão) influencia substancialmente na hora de escolher os governantes. Inevitavelmente esses governantes caem na falta de respeito aos seus votantes, e aos outros também, mas tudo se limpa com um honrado e sempre conveniente pedido de demissão, como se com isso se sanasse todo o mal causado pela incompetência ou negligência desses governantes. Na verdade, errar é humano, mas 30 anos de sucessivos erros governamentais, começa a ser desumano.
Aqui há um ditado que diz que o movimento se demonstra andando. E talvez no dia em que os portugueses comecem a dar menos importância ao suposto respeito verbal, e comecem a dar mais importância ao respeito demonstrado pelas acções, talvez se esteja no bom caminho para exigir uma classe política em condições, de pessoas verdadeiramente abnegada, com vontade de servir o país, mais do que a eles próprios. Pode ser muito dramático da minha parte, mas ultimamente tenho assistido a tantos crimes de lesa-pátria, por parte da classe política, que mais do que responsabilidades políticas, exigiria responsabilidades criminais. Ou o pessoal vai aturar para sempre o “quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”?
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
Eleições
Rodriguez Zapatero (14 de Março de 2004): Estou consciente de que esta vitória do PSOE se deve grandemente a um voto de castigo ao anterior governo do PP, e farei todo o possível para não desiludir os eleitores.
José Socrates (20 de Fevereiro de 2005): Eu sei que esta vitória não é apenas um voto de castigo ao governo do PSD/PP.............
Descubram as diferenças
José Socrates (20 de Fevereiro de 2005): Eu sei que esta vitória não é apenas um voto de castigo ao governo do PSD/PP.............
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