sexta-feira, outubro 21, 2005

Politicamente (In)Correcto

É que já não há cu que aguente! Mãe, se estás a ler isto aviso-te já que segues por tua conta e risco!

JÁ NÃO AGUENTO MAIS O POLITICAMENTE CORRECTO!!!!!!!!!!!!!!!!

Quanto mais politicamente correcta se torna a sociedade, mais necessidade sinto de dizer caralhadas, e de verbalmente encher as mãos de merda e esfregá-las na parede! O politicamente correcto é o estado mais vil e cínico a que chegou esta sociedade! Dum snobismo à prova de bala! O parecer bem, o ficar bem, o dizer bem, o fazer o bem, denota a mais baixa condição moral humana! Durante séculos as coisas e as pessoas sempre tiveram os seus lugares nas sociedades humanas, e agora de repente toda a gente é boazinha! Os poderosos sempre foram poderosos, e para se manterem poderosos sempre se apoiaram nos que sempre foderam e sempre foram fodidos. Mas na era do politicamente correcto, toda a gente vive na grande mentira de que toda a gente tem as mesmas hipóteses à partida. Para começar, a lei da selva que tanto horroriza o politicamente correcto, é a lei da natureza: há quem esteja mais acima na cadeia alimentar, há quem esteja mais abaixo, mas imperetrivelmente todos e tudo tem o seu sítio, e os humanos não escapam à regra, por mais que o tentem mascarar. É cruel convencer os cidadãos duma suposta democracia, que têm direito a decidir, quando não se lhes põe diante verdadeiras alternativas credíveis. É cruel convencer um pobre de que se trabalhar muito vai ser alguém na vida. É cruel um artista pop ir a um país do 3º mundo tirar a fotografia com um indígena (de preferência criança), dando-lhe a ilusão de que a sua vida melhorará substancialmente depois da partida do dito cujo. É cruel o politicamente correcto. O politicamente correcto é uma tentativa de que os outros não pensem que pensamos aquilo que verdadeiramente pensamos. È um branqueamento de imagem e intenções. É uma palhaçada mórbida que causa danos irreversíveis à sociedade!

Noutro dia vi num blog amigo a referência a um artista “afro-americano”. O que é isso? Isso existe na realidade? Existem também afro-europeus, afro-asiáticos e afro-oceânicos? Ou é um americano com um penteado afro? Ah, é porque é um americano negro! E de que país é que ele é, já agora? Canadá, Colombia, Argentina? Então e se for americano, mas de descendência marroquina, argelina, tunisina, líbia, ou egípcia? Que eu saiba também são países africanos, cuja raça predominante não é a negra. Que parvoíce é esta? Os vagabundos são sem-abrigo, os almeidas são técnicos de salubridade, os tísicos são portadores de doença infecto-contagiosa, os moinantes são delinquentes, as mulheres-a-dias e as sopeiras são empregadas domésticas, os maricas são homossexuais, os coscuvilheiros são jornalistas e os filhos-da-puta são governo. Andam a gozar com o pagode, ou quê?

Tem continuação............

Filosofia de Emilio

Chegou-me ao meu email uma mensagem com uma série de frases “filosóficas”, e algumas (sabe-se lá porquê) achei dignas de nota, e de reflexão. E passo a citar:


-“A facilidade de falar é quase sempre devida à incapacidade de estar calado”

-“Os políticos são como as fraldas do bebés. Necessitam ser mudados frequentemente, e pelas mesmas razões”

-“Não se deve maltratar as mulheres! A natureza encarrega-se disso à medida que o tempo passa” (Com os homens passa o mesmo)

-“A forma das pirâmides do Egipto demonstra eloquentemente que já nessa época havia tendência para os trabalhadores produzirem cada vez menos”

-“Diz a alguém que há 300 milhões de estrelas no universo e acreditará, mas se lhe disseres que a tinta não está seca, terá necessidade de verificar com o dedo”

quinta-feira, outubro 20, 2005

Acorda, Lerdo!

Aqui há 2 anos, nos camarins do Barbican Center, em Londres, veio-me ter à mão, sem dono, o livro Awakening (se estiver traduazido para português, a tradução talvez seja Despertar), um livro inquietante de Anthony de Mello. O dito cujo era um psicólogo jesuíta, que pela sua postura, não sei se resistiria no presente pontificado, e nem sei como é que a Santa Madre que os pariu lá do Vaticano nunca lhe deu com o xanato no traseiro, pois aquilo que o rapaz advogava, noutros tempos da fidalguia, dar-lhe-ia oportunidade de fazer companhia aos carapaus no braseiro, como o Giordano Bruno. Além do mais as suas amizades eram pouco recomendáveis, pois era íntimo de vários místicos e teólogos de várias religiões e filosofias espirituais. Claro que isso para mim tem a maior simpatia, e o facto de isso provocar uma severa irritação no escroto do santo padre, quase que o amei. É uma livro que recomendo às mentes mais inquietas. Já vou na terceira leitura, a modos de Tai-Chi-Chuan. Vem-me à memória uma frase que um colega meu em Itália me escreveu na agenda escolar, no fim do curso:”L’importante é che la morte ci trovi vivvi!”

Dark Side Of The Moon

 
Resisti 10 meses sem falar aqui de música. Não está mau! Mas a razão é de peso. Saquei da internet um documental do "making of" deste fantástico disco, comentado por todos os intervenientes, 30 anos depois. Invejei bastante o talento e a criatividade dos músicos e do engenheiro de som (Alan Parsons), mas sobretudo invejei as condições em que trabalharam: enfiaram-se no estúdio, e só sairam de lá com o disco pronto! E fiquei a perguntar-me o que é que se passou entretanto com a industria musical. Porque é que depois entrou em vigor a moda de gravar discos em 15 dias? Se isso servia para os Ramones, ou para os Sex Pistols, não quer dizer que sirva para todos. Eu pessoalmente tive sorte, porque na última grande produção que tive em portugal, entrei no estúdio por um mês, e sai de lá ao fim de 3. É que era impossível fazer a coisa por menos!
De volta ao Dark Side, deu-me também saudade do tempo em que havia gente que queria dizer alguma coisa com os seus discos, e os tratavam de verdade como a criação duma obra de arte. O tempo veio-lhes a dar razão. Como "concept-album" (disco de conceito), este disco é provavelmente uma das maiores obras-primas da música contemporânea: pela composição, execução, produção e realização. Foi tudo feito à unha! Hoje temos ferramentas impensáveis naqueles tempos, mas a creatividade, e o tempo para experimentação, simplesmente não existem. Que tristeza!
Vou ver se consigo fazer algo em relação a isso! Posted by Picasa

A Noite (Rectificação)

     Afinal a coisa é pior do que eu pensava. A minha mãe teve a gentileza de me corrigir. É que o tal ritual da oferenda à lua não era para prevenir, já era para tentar remediar! Ou seja que isto do noctívago já é de nascença! E o pior, é que me parece que é hereditário, pois o meu rebento também tem certa dificuldade em entregar-se aos braços de Orfeu. Se eu soubesse antes, poderia ter feito uma brilhante carreira como guarda-nocturno, mas pode ser que o meu filho ainda esteja a tempo!

terça-feira, outubro 18, 2005

1964-2003

Se fosse vivo teria a minha idade. Passou toda a sua vida exibindo o seu mau génio, como um dos símbolos de Barcelona (eleito compulsivamente). Apresentava-se normalmente de costas voltadas para o público, espiando ocasionalmente por cima do ombro, com um olhar de desprezo impressionante. Quando se voltava, era normalmente para arremessar excrementos contra a populaça que o observava, por sorte protegidos por um grosso vidro. Era majestoso, altivo, como um grande rei africano. Vimo-nos cara a cara uma vez, e fitámo-nos mutuamente, o seu olhar arguto impunha um respeito impressionante. Uma vida de cativeiro nunca esmoreceu a sua altivez e a sua dignidade, e a sua revolta. Quis o destino que a causa do seu destaque fosse a causa da sua morte. Pela sua condição de albino contraiu cancro de pele. Mas como desde bebé lhe foi negado o direito básico da liberdade, pelo menos teve direito àquilo que é negado a muitos humanos: a eutanásia.

Cumprem-se 2 anos após a sua morte, e queria aqui prestar a minha mais humilde reverência a um símbolo de majestade constante num cativeiro ridículo. Posted by Picasa

Hibernação

É Outono! Lá fora chove. Obrigado pelas evidências da vida a despir-me da arrogância que os humanos têm em desvincular-se da sua condição animal primeira, recolho inexoravel e lentamente, como um urso à gruta. Adeus, até à primavera!

segunda-feira, outubro 17, 2005

A noite

Rezam as crónicas familiares, que quando eu era bebé, a minha avó paterna me ofereceu à lua, em ritual, para que eu não fosse vadio. Suspeito que os esforços da pobre mulher foram contraproducentes. Tenho vivido a maior parte do tempo da minha vida de noite. Posso pôr todas as desculpas possíveis para que isso acontecesse: a vida profissional, os sonos trocados, etc. O que é certo é que levo mais de um ano, tentando levar a vida de uma pessoa normal, e levanto-me cada dia às 7 da manhã, mas mesmo assim, a noite vem-me chamar à cama a meio do meu sono profundo, e arrasta-me para dentro dela, como se lhe pertencesse. Alguns dirão “sofres de insónias!”, não, não sofro de insónias, porque quando me é permitido durmo muito bem..............durante o dia! Conheço pessoas que levam anos a dormir 2 e 3 horas, e essas, sim, sofrem de insónias, mas eu não me aguentaria nesse ritmo. Por vezes, deito-me antes de jantar, ou faço uma sesta, quando posso. Mas mesmo quando estou morto de sono às 11 da noite, invariavelmente acordo a meio da noite, sem pesadelos, sem ruídos, apenas acordo.

Também se poderia dizer que prefiro a noite ao dia. Não tenho a certeza, pois gosto muito da clara frescura duma manhã de sol, de sair à rua e gozar da exuberância das cores e dos aromas que o dia traz. Das tardes de verão que sempre me remontam à minha infância (não sei porquê).
Por outro lado a noite tem o recolhimento e a intimidade, que o dia não tem. É certo que prefiro trabalhar de noite do que de dia. Concentro-me muito mais, e estou comigo mesmo.

Escrevo esta posta porque mais uma vez, e inexplicavelmente, acordei às 4 da manhã, depois de me ter deitado antes da meia-noite, e ter adormecido. Tenho um primo que é psicólogo, e que uma vez saiu num programa de televisão a explicar toda a história dos ciclos do sono. Bastante interessante, mas já não me lembro.

A noite tem a sua própria magia, algo de clandestino. Como quando comecei a trabalhar naquilo que viria a ser a minha futura profissão. Comecei na noite de Lisboa, que então era muito diferente do que é hoje. Era como um clube selecto a que muito poucos tinham acesso, e pouco a pouco, esse clube me foi abrindo as portas de par em par, até fazer-me membro honorário. Dei-me conta disso, quando há um par de anos me encontrei com um fotógrafo que conheço desde esses tempos, para lhe comprar algumas fotos recentes que me tinha feito. E quando lhe perguntei se ele tinha alguma foto desses tempos, e lhe comecei a referir lugares, personagens e datas, ele disse-me: “Mas isso foi no princípio de tudo! E tu estavas lá!”. Pois é, dei-me conta nesse momento que se tinham passado 20 anos, e que eu tinha feito parte dos primórdios da noite lisboeta. Quando o Bairro Alto era um bairro mal-afamado, onde só paravam putas e jornalistas (muitas das redacções residiam lá). Lembro-me da decadência, das putas, dos edifícios, e dalguns dos jornalistas, e outras personangens militantes da via alcoólica para o socialismo. Lembro-me da inauguração do Frágil (para verem o quão antigo sou), das noites passadas no Ocarina por vezes até entrarem as mulheres da limpeza. Lembro-me também das mudanças que me afastaram para outros lugares do Bairro Alto, ou mesmo para outros da cidade. Nessa conversa, com o fotógrafo, tive então consciência de que tinha feito parte de algo, sem o saber, e sem querer: os primórdios da noite de Lisboa! O mais engraçado é que eu não sou de Lisboa, nem nunca morei em Lisboa. Mas isso pouco interessa à noite, que ainda aqui em Barcelona, continua a reclamar a minha presença, nem que seja a ler um livro, a ouvir música com os auscultadores, ou a ver um filme. A noite sabe que o meu corpo já há muito tempo não me puxa para a borga, e que o “bater as capelinhas” foi coisa do qual me cansei há muitos, muitos anos. Então dedico-me a velar o sono dos meus, e a encontrar-me comigo no escuro..........................e conversar.

Não sei se algum dia a noite me vai deixar dormir em paz, mas entretanto vou-me questionando: hábito ou doença? Maldição ou benção? Pouco me interessa. Como li há pouco na Corveia: “Se entendes, as coisas são como são, se não entendes, as coisas são como são!”

quarta-feira, outubro 12, 2005

segunda-feira, outubro 10, 2005

Defesas anti-aéreas

Rapazes e raparigas, comentadores e comentaristas habituais e eventuais deste blog. É com grande pena minha que me vejo obrigado, eu também, a pôr a verificação de letras (o tal word verification, embora as words sejam muito esquisitas) quando voxelências se dignam a comentar o que acham digno e oportuno de tal coisa. É que neste preciso dia, em que muitos de vocês devem estranhar tamanha febre "postal" minha (estou em casa com gripe), este vosso blog servidor foi bombardeado por infames comentários publicitários. Assim, para que tanto vocês, e principalmente eu, nos vejamos livres desses bombardeios vejo-me obrigado a forçá-los a este pequeno incoveniente, para que o ar continue respirável aqui no curral da Burra. Só esperamos (eu e a Burra), que isso não vos atemorize ou esmoreça os vossos sempre benvindos comentários. Como dizia o outro, da discussão nasce a luz, e como dizia a saudosa Drª Rute Remédios "As opiniões são como as vaginas, cada um tem a sua e quem quiser dá-la, dá-la!!". Bem haja a vossa compreensão.

Os destroços já foram removidos pelas brigadas de limpeza, o caminho está livre!

A vista que eu tinha da janela quando trabalhava no Citibank, na Pla�a Catalunya, em Mar�o de 2003 Posted by Picasa

Meninos & Meninas

Desculpem lá, mas ao ler uma posta da Sandra Feliciano, não pude deixar de reflectir sobre o assunto. Ou sou eu que arrogantemente estou num estado superior da evolução humana, como várias vezes me foi apontado, ou então nasci no país errado, e às vezes suspeito que no planeta errado, também. Não entendo como é que toda a gente se põe “em bicos-de-pés” dizendo que estamos no século XXI, e tal, e a evolução tecnológica, e mais não sei quê, e a evolução social, e o ocidente e o oriente, e os direitos humanos, e os direitos dos animais, e salvem a terra, e a baleia, e a formiga d’asa, e mais não sei quê. É que ainda se anda a discutir as coisas das mulheres e as coisas dos homens, e ainda se anda a falar das mulheres como se tratassem duma minoria étnica em vias de extinção. Ora, se bem me parece, penso que a nível mundial existem muito mais mulheres que homens. Então? Que é que falta?
Pode ser que seja muito pretenciosismo da minha parte, mas eu tenho amigos homens, mulheres, negros, mulatos, indianos, cegos, deficientes motores, homossexuais, lésbicas, àrabes, velhos, jovens, e nunca tratei ninguém diferente pela condição daquilo que é, mas sempre por quem é. Há gente extraordinária de todos os formatos e feitios e cores, assim como existem pessoas extremamente estúpidas nas mesmas condições, ainda que aqui em Espanha tenham tendência para se agruparem todas no PP, o que facilita o reconhecimento.
Andar nos dias de hoje a debater o que é das meninas e o que é dos meninos, é, para mim, perfeitamente absurdo, ainda que concorde que tristemente, continua a ser necessário. As mentes iluminadas da nossa sociedade debatem ferozmente estas e outras questões, e no final voltam todos às suas respectivas cavernas.

Resultado das Eleições

"Raede Ceasare quae sunt Ceasaris", "Raede Populum quae sunt Populis"

E depois ainda há quem me pergunte o que é que eu faço aqui. Não sei! É que até nova ordem só tenho esta vida para viver, e o D. Sebastião nunca mais chega, e já lá vão 400 anos. Começo a suspeitar que os políticos portugueses são uma mutação. Em vez de estômago têm papo.

domingo, outubro 09, 2005

Ainda o 3º Aniversário

Ainda a propósito destes 3 anos que passaram, queria deixar-me das inevitáveis queixinhas, e falar sobre aquilo que aprendi, e de que me lembro.
O primeiro mês foi a incógnita total. Quase não consegui dormir, entre a excitação de toda a vida pela frente para consolidar coisas, e o facto de estar a morar entre a calle Aragón (que tem 6 faixas de trânsito) e a Avenida Diagonal (outras tantas). Lembro-me que o casal que morava no andar de cima fazia amor pontualmente à uma e meia da manhã, quase como quem escova os dentes antes de dormir. Vinha-me sempre à memória uma canção da Joni Mitchell:" The Crazy Cries of Love".
Depois o princípio duma nova rotina, começando a dar aulas na escola Passatge. Começando a aprender a dar aulas. O aperto de ver o meu dinheiro a chegar ao fim, e a salvação que constituiu a minha entrada no departamento de cobranças de visa no Citibank, departamento de Portugal. A seguir o desencanto. Começa a guerra do Iraque, lá fora a população manifestava-se, e eu sentindo-me como um traidor a soldo do inimigo. Três semanas depois era despedido duma maneira ignóbil, como é uso e costume deste tipo de instituições “respeitáveis”. Quanto mais “respeitáveis”, mais ignóbeis os seus procedimentos.
Foi também o conhecer um novo universo e novas culturas: a catalã, a espanhola, e principalmente a latino-americana. A latino-americana por mão dos meus amigos argentinos, chilenos e venezuelanos. Constatar como Espanha mantém fortes laços culturais e económicos com as suas ex-colónias, e compará-lo com o “virar de costas” do estado português às suas. Ver como os actores, escritores, pintores e músicos espanhois são conhecidos e apreciados na América Latina, e vice-versa, constituindo assim um mercado cultural quase inesgotável.
Foi aproximar-me ao flamenco, que desde sempre me havia seduzido através de Paco de Lucia e do seu grupo, e descobrir todo um universo de cores e sons, muito mais aberto do que eu pensava.
Foi também aproximar-me à cultura marroquina, através dos meu alunos dum centro de jovens em Terrassa. Descobrir que afinal não somos tão distantes, nem na religião, nem na cultura. Descobrir de onde vieram certos ritmos portugueses. Descobrir que eles podem estar um pouco atrasados, mas que são iguais ao que nós éramos há 30 anos atrás.
Foi aprender que no bairro onde vivo, podem conviver diferentes etnias, religiões e culturas em relativa harmonia, unidos pela comum condição de imigrantes, e que é tão fácil ser simpático. E como este fenómeno está a mudar a face da cidade.
Muitas vezes me perguntei porque é que a Europa rejeita tão veemente a integração dessas novas culturas que vêm até ela, desaproveitando uma oportunidade de ouro para uma regeneração que se anuncia urgente e já tardia?
Nesse sentido, tudo parecia bem em Portugal a princípios dos anos 80, e que a pujante exuberância e creatividade das pessoas que recentemente tinham chegado das também recentes ex-colónias estava a contagiar beneficamente a sociedade portuguesa. Depois, veio a entrada na CEE, e os sucessivos governos cavaquistas, e as cores empalideceram, e se acinzentaram. Um amigo meu argentino disse-me que é o medo a crescer, que é o medo a mudar uma estrutura que de tão velha já cai aos bocados, e que desesperadamente se tenta manter a todo o custo. Mesmo a custo de esquecer velhas querelas de séculos e criar uma união.

Os nossos poetas

Um amigo meu mandou-me isto por emilio. Que é que vos parece?


Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não!


Jorge de Sena


Parece que o rapaz estava com maus fígados. No entanto......

sexta-feira, setembro 30, 2005

Três anos

E passaram 3 anos. Na verdade não passaram assim tão rápido. Como dizia um slogan publicitário de uma marca de relógios "O tempo é o que se faz com ele". Passou-se muita coisa durante estes 3 anos. Desde a incerteza da aventura inicial, até à quase estabilidade dos dias de hoje, muita àgua passou debaixo da ponte. Desde o minúsculo quarto alugado em casa da Laia Cagigal, minha colega na escola Passatge, até ao minúsculo apartamento onde vivo.
Foi uma decisão difícil, de consequências dificeis. Mas ao mesmo tempo, quase uma decisão para a qual a própria vida me empurrou, e para a qual eu sabia que não havia volta atrás. E neste preciso momento, a volta atrás é algo perfeitamente inconcebível. E noto isso quando alguém me pergunta inusitadamente se eu neste momento voltaria a viver em Portugal. A minha reacção primeira é de surpresa total, porque é uma opção que me passa tanto pela cabeça como ir para padre, e como consequência a minha resposta imediata é negativa. E sai-me sem qualquer tipo de hesitação. Quer dizer isso que renego a 38 anos da minha vida? Não, em absoluto! Continuo a ser tão português como antes. Sou, e serei portador de uma herança cultural, e de uma experiência de vida que nenhuma condição apagará. Sou o que sou e quem sou, porque vivi o que vivi, onde vivi e com quem vivi. Renegar isso, seria renegar-me a mim mesmo, e tenho por experiência pessoal, que a maior certeza que existe na vida, além da morte, é que até que a morte chegue, terei que viver comigo mesmo, e é de toda a conveniência que essa convivência seja o mais pacífica possível. Não sei se me faço entender bem.
Mas foram 3 anos em que não tive que lutar diariamente pelo respeito que me é devido por ser pessoa, e muito raramente fui alvo do mau-humor dum qualquer imbecil que acordou mal-disposto, seja na rua, nas instituições ou no trabalho. Não tive que andar atrás de ninguém quase implorando que me paguem o meu trabalho nos prazos acordados (por vezes foram meses, mas já o sabia à partida, e pagaram-me quando eu o esperava). Em que vi o meu trabalho devidamente valorizado e respeitado por colegas e clientes, tendo estes sempre uma palavra amável, que nos ajuda sempre a acreditar cada vez mais em nós próprios, e a aligeirar a carga que o trabalho em si possa constituir. Foram 3 anos em que por me esforçar por ajudar-me, muita gente e instituições me ajudaram, em vez de me dificultarem o caminho. Foram 3 anos, ao fim dos quais posso dizer que me sinto uma melhor pessoa, muito longe da imagem dum tipo azedo, tristonho e desiludido que se punha diante dos olhos cada vez que pensava no meu futuro, quando vivia em Portugal. Ao mesmo tempo dá-me uma certa raiva, porque podia ter e ser isto tudo sem ter que sair do meu próprio país, bastava que o povo ao qual pertenço fosse um pouco mais inteligente emocionalmente. Desgraçadamente esse povo escolhe o caminho do "chico-espertismo" com todas as consequências que daí advêm, e que cada vez mais saltam à vista de quem queira ou não queira ver. Existe a firme crença que é mais fácil despejar a merda do nosso quintal para o quintal do vizinho, em vez de a limpar. Existe a firme crença que "trabalhar é bom para o preto", e que é mais fixe ser "muita esperto", enganar os outros, fugir aos impostos, e viver de esquemas que sempre tramam alguém. Um gajo tem que se safar (consultar anterior posta). Os efeitos desta "vocação" nacional tornaram-se palpáveis com os sucessivos anos de incêndios. Assim como a terra, os recursos sociais queimam-se, e tornam-se àridos e só alguns poucos beneficiaram alarvemente deles. E quando uma "mama" seca, inventa-se outra, até que todas sequem. E não é de agora, é de sempre. Só nos orgulhamos de ser portugueses através dos Carlos Lopes, das Rosas Motas, dos Campeonatos Europeus de Futebol, das Expos 98, e outros que tais, que nos puxam a lagriminha ao olho, porque parece sermos incapazes de nos orgulharmos individualmente de nós próprios. Falo, obviamente de uma maneira geral. Indentificamo-nos com os herois nacionais que nos apaziguam a consciência, e nos fazem sentir um pouco menos miseráveis.
Lá estou eu de novo no choradinho de sempre! Desculpem-me os leitores, mas é que ainda não consegui superar uma série de coisas, como ainda não consegui explicar aqui a ninguém esta relação amor-ódio com o meu país. E também me mete raiva não conseguir resolver isso, porque é muito difícil demarcar a fronteira onde acaba o amor e começa o ódio. Pelo menos não me é indiferente, e isso já é algo que me descansa. Como dizia o professor Agostinho da Silva, existem os povos "ou" e os povos "e", a maior parte dos povos são "isto ou aquilo", mas há povos como o português que são "isto e aquilo e várias coisas ao mesmo tempo". Provavelmente sofro eu também da tendência geral do ser humano de querer explicar o inexplicável, para me sentir mais seguro, para ter algo onde me agarrar.
Bom, mas seguindo com o dizia antes, uma das conquistas mais importantes, ou talvez a mais importante, foi o facto de eu ter conseguido reunir as condições para ter o meu filho Sérgio a viver aqui comigo, e ver que ele se sente contente e feliz com isso, apesar das muitas saudades que tem da mãe, do irmão, da família e dos amigos.
Passei estes 3 anos numa cidade maravilhosa, que dá gosto sair à rua e admirar os seus edifícios. Dá gosto passear pelo bairro, mesmo sendo o mais degradado da cidade, e entrar num café paquistanês, comprar um pão galego, beber um café italiano e comer uns pastelinhos marroquinos, tudo no mesmo sítio. Passear no centro da cidade ao domingo e ver as ruas cheias de gente, e pensar que a baixa de Lisboa nesse preciso momento estará deserta, apenas com alguns turistas para apreciar a sua glória, enquanto a típica família lisboeta se passeia pelo Colombo, ou pelo Vasco da Gama. Vivi 3 anos sem saber o que é o sigilo bancário, e que se eu (ou qualquer outro cidadão) se escusa a pagar uma multa, ou um imposto, ou seja o que for, o estado ou o governo regional aleija onde mais doi: na conta bancária. Vivo há 3 anos num sítio onde em vez de ir para longas bichas para comprar impressos, e outras tantas para os entregar, apenas faço uma chamada telefónica conserto dia e hora, e faço a minha declaração de impostos em 10 minutos. Onde o liceu onde estuda o meu filho me faz pagar apenas 100€ por livros e material escolar por todo o ano lectivo, e que desses 100€, o governo central comparticipa com 85€. É que os livros servem de um ano para o outro, e pertencem à escola. E com grande satisfação minha, esse liceu receberá o Premio Educação 2004, da Generalitat da Catalunya (o governo regional), dando assim um exemplo a toda a região, e quiçá ao resto do estado espanhol. Três anos ao fim dos quais, pude dar-me ao luxo de não trabalhar no mês de Agosto, e poder descansar, coisa que não me acontece há aproximadamente 20 anos. Lembro-me de tirar 3 semanas de férias em Dezembro de 1985, e outras 3 semanas em Janeiro de 1997.
Foram apenas 3 anos que passaram, mas foram 3 anos de àrdua luta, que finalmente começam a dar os seus frutos. Foi uma loucura, recomeçar tudo de novo quase com 40 anos. Ao passo que há 5 anos atrás, em Portugal, depois duma semi-ausência de 2 anos, fui obrigado a começar tudo de novo, como se nunca lá tivesse vivido e trabalhado durante pelo menos 20 anos. Começar de novo, por começar de novo, decidi começar de novo num sítio onde vale mais a pena. E efectivamente vale! Não é nenhum paraíso, nem esperava isso, apenas esperava poder viver uma vida normal, entre gente normal, num país normal. Muitas vezes tenho saudades da esquizofrenia colectiva do povo português, mas os custos são demasiado dolorosos.

sábado, setembro 24, 2005

Afinal a jiboia era outra!

Primeira gripalhada do pós-férias! Assim a modos como a dizer-me "já estamos no outono, deixa lá os chinelos, e calça-te alguma coisa que agasalhe mais os chispes". Pois é, e quem é que diz agora aos pés para se enfiarem dentro de tenis, sapatos ou botas, quando estão desde Maio, alegremente "laureando a pevide" ao léu, com os chinelitos? Sim, os mesmos chinelitos-de-enfiar-o-dedo que há 30 anos só os pobres e desleixados usavam, hoje são ostentados como uma peça de roupa indispensável ao mais fashion dos veraneantes. Aqui chamam a isso, favela-fashion. Ainda não percebi se é uma piada de mau-gosto, se é pura ignorância. Para mim, é o conforto.
Com esta idade, e ainda tenho dúvidas quanto aos sinais do corpo. A mandriice que me vinha atacando há uns dias, não era senão a costumeira gripite do equinócio, que sempre me apanha à traição no outono, ou na primavera. Naquelas alturas absurdas que nunca se sabe o que vestir, e que se resiste até à ultima na indumentária estival.
A propósito de sinais do corpo. Eu já tinha conhecimento do modus operandi sueco, Sandra. O que se passa é que o autor deste livro fala de nórdicos, mas refere-se a alemães, ingleses, belgas, holandeses e quejandos. Não me parece que os suecos, finlandeses e noruegueses estejam englobados nesta definição. Até porque a sua filosofia de vida, muito pouco tem a ver com eles. O autor do livro tenta explicar algo que é uma tendência natural da essência de cada povo. Os nórdicos de que ele fala, tem uma adoração pelo trabalho, pela organização, pela productividade, e pela eficiência. Valores, que de uma maneira geral, são um pouco estranhos aos povos mediterrâneos, mais peritos no ócio criativo, como a convivência, as artes, a gastronomia, e outras coisas que tais. Obviamente que tudo isto de uma maneira muito geral.
Mas disso já tinha falado bastante o nosso querido Agostinho da Silva, que embora estivesse certo no seu raciocínio, por vezes carecia de um certo realismo. É que o ser humano é bastante surpreendente, mas normalmente surpreende para o pior, muito mais do que para o melhor.
Pessoalmente, sempre achei que o esforço industrializante do Portugal pós-CEE era ridículo, pois tentar competir em quantidade com Alemanha, França, Reino Unido, e até com Espanha, era na melhor das hipóteses dar um passo muito maior do que a perna. Muito melhor teria sido apostar numa produção pequena, mas de qualidade, nomeadamente na agricultura (em vez disso, practicamente se aniquilou), e vendê-los como delicatessen, com denominação de origem, a exemplo do que fizeram os belgas e os suiços com o chocolate, que nem sequer é originário de lá. Muito melhor teria sido apostar por uma oferta turística de qualidade a preço acessível, e não deixar fazer o que fizeram com o Algarve, e pelos vistos, o que estão a fazer no litoral alentejano. Mas não, há sempre a tendência saloia de se pôr em bicos de pés, sem sacar proveito da nossa própria dimensão. Sou português, mas sinceramente, nunca entendi o meu povo. É-me extremamente difícil explicar aqui aos meus amigos o que é Portugal e os portugueses, ficam sempre sem perceber nada, e eu idem.

Mudando de assunto. Festas da Mercè. A festa maior da cidade de Barcelona, a que eu pela primeira vez me juntei, como convidado do grupo Bazar. Teve um gostinho especial tocar na Plaça Catalunya, mesmo em frente do edifício, onde há 2 anos e meio tive uma das piores experiências laborais da minha vida, trabalhando no departamento português das cobranças de contas visa do Citibank. O trabalho em si já era horroroso, mas uma sub-chefe gratuitamente déspota e arrogante, completava o quadro, como uma ginja em cima do bolo. Esta gente continua a acreditar que a productividade se consegue à custa de má-onda e intolerância. Nessa época, tinha iniciado recentemente a 2ª guerra do Golfo, e as manifestações na cidade eram diárias, e as concentrações na Plaça Catalunya, também. Sentia-me a trabalhar para o inimigo.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Preguiça Productiva

Afinal parece que a preguiça produz alguma coisa. Mais que não seja o encontro (ou reencontro, não percebi bem), entre 2 postantes habitués aqui da Burra. E é que para mim o encontro tertuliante entre pessoas é do melhor que há. Ainda que sejam 2 pessoas que infelizmente não conheço pessoalmente, são sempre benvindos.
Não sei se a propósito ou não, mas comprei um livro num alfarrabista por 1€, cujo título é "La Mediterrània i els bàrbars del Nord", e como subtítulo a jeito de explicação diz: "Els nòrdics ens han industrialitzat el món, propiciant una nova societat de l'oci on els esclaus seran les màquines. Ha arribat l'hora de tornar a l'ideal epicuri i humanista de la Mediterrània". O título chamou-me a atenção, por uma frase minha, constante em discussões filosofico-políticas com norte-europeus. Principalmente quando faziam comentários desagradáveis acerca dos povos do sul da Europa. Apenas lhes lembrava que historicamente está provado que do norte da Europa nunca veio nada realmente aportador e inovador para a humanidade.
Ainda sobre livros, ontem recebi uma prenda de valor incalculável para mim. Os meus queridos pais enviaram-me por correio, uma edição de 1974 das obras completas de Guerra Junqueiro. Delicio-me sempre ao ler os versos da "Velhice do Padre Eterno", infelizmente não há versão traduzida aqui deste lado, portanto faço o possível por partilhar a genialidade do poeta com os meus amigos daqui.

Nota final: hoje a jibóia transformou-se em dor de cabeça fulminante, e quase nem saí da cama! Nem consegui ler o Guerra Junqueiro.

terça-feira, setembro 20, 2005

A Preguiça

Ataca sempre de mansinho, como uma jibóia que se enrola à volta do pescoço. E sempre me apanha quando mais preciso de estar desperto e activo para afrontar o novo ano de trabalho. E quanto mais tento resistir, mais me aperta.

domingo, setembro 11, 2005

Diada de Catalunya

Hoje é o dia da Catalunha. Desde quando? Desde que no século XVIII, uma revolta de ceifeiros foi esmagado pelos espanhóis, e os converteu em mártires da nação catalã. É extraordinário o sentimento positivo deste pessoal ao celebrar uma derrota. Seria o mesmo que os portugueses celebrassem a data da batalha de Alcácer Quibir (Qsar El Kabir). A propósito, muitos dos meus alunos marroquinos são de lá.
E o trabalho continua, para bingo, espero!