quarta-feira, outubro 12, 2005
Boas Vindas
Queria dar as boas vindas a um novo blog. Chama-se A Corveia, e penso que merecerá a vossa atenção.
segunda-feira, outubro 10, 2005
Defesas anti-aéreas
Rapazes e raparigas, comentadores e comentaristas habituais e eventuais deste blog. É com grande pena minha que me vejo obrigado, eu também, a pôr a verificação de letras (o tal word verification, embora as words sejam muito esquisitas) quando voxelências se dignam a comentar o que acham digno e oportuno de tal coisa. É que neste preciso dia, em que muitos de vocês devem estranhar tamanha febre "postal" minha (estou em casa com gripe), este vosso blog servidor foi bombardeado por infames comentários publicitários. Assim, para que tanto vocês, e principalmente eu, nos vejamos livres desses bombardeios vejo-me obrigado a forçá-los a este pequeno incoveniente, para que o ar continue respirável aqui no curral da Burra. Só esperamos (eu e a Burra), que isso não vos atemorize ou esmoreça os vossos sempre benvindos comentários. Como dizia o outro, da discussão nasce a luz, e como dizia a saudosa Drª Rute Remédios "As opiniões são como as vaginas, cada um tem a sua e quem quiser dá-la, dá-la!!". Bem haja a vossa compreensão.
Os destroços já foram removidos pelas brigadas de limpeza, o caminho está livre!
Os destroços já foram removidos pelas brigadas de limpeza, o caminho está livre!
Meninos & Meninas
Desculpem lá, mas ao ler uma posta da Sandra Feliciano, não pude deixar de reflectir sobre o assunto. Ou sou eu que arrogantemente estou num estado superior da evolução humana, como várias vezes me foi apontado, ou então nasci no país errado, e às vezes suspeito que no planeta errado, também. Não entendo como é que toda a gente se põe “em bicos-de-pés” dizendo que estamos no século XXI, e tal, e a evolução tecnológica, e mais não sei quê, e a evolução social, e o ocidente e o oriente, e os direitos humanos, e os direitos dos animais, e salvem a terra, e a baleia, e a formiga d’asa, e mais não sei quê. É que ainda se anda a discutir as coisas das mulheres e as coisas dos homens, e ainda se anda a falar das mulheres como se tratassem duma minoria étnica em vias de extinção. Ora, se bem me parece, penso que a nível mundial existem muito mais mulheres que homens. Então? Que é que falta?
Pode ser que seja muito pretenciosismo da minha parte, mas eu tenho amigos homens, mulheres, negros, mulatos, indianos, cegos, deficientes motores, homossexuais, lésbicas, àrabes, velhos, jovens, e nunca tratei ninguém diferente pela condição daquilo que é, mas sempre por quem é. Há gente extraordinária de todos os formatos e feitios e cores, assim como existem pessoas extremamente estúpidas nas mesmas condições, ainda que aqui em Espanha tenham tendência para se agruparem todas no PP, o que facilita o reconhecimento.
Andar nos dias de hoje a debater o que é das meninas e o que é dos meninos, é, para mim, perfeitamente absurdo, ainda que concorde que tristemente, continua a ser necessário. As mentes iluminadas da nossa sociedade debatem ferozmente estas e outras questões, e no final voltam todos às suas respectivas cavernas.
Pode ser que seja muito pretenciosismo da minha parte, mas eu tenho amigos homens, mulheres, negros, mulatos, indianos, cegos, deficientes motores, homossexuais, lésbicas, àrabes, velhos, jovens, e nunca tratei ninguém diferente pela condição daquilo que é, mas sempre por quem é. Há gente extraordinária de todos os formatos e feitios e cores, assim como existem pessoas extremamente estúpidas nas mesmas condições, ainda que aqui em Espanha tenham tendência para se agruparem todas no PP, o que facilita o reconhecimento.
Andar nos dias de hoje a debater o que é das meninas e o que é dos meninos, é, para mim, perfeitamente absurdo, ainda que concorde que tristemente, continua a ser necessário. As mentes iluminadas da nossa sociedade debatem ferozmente estas e outras questões, e no final voltam todos às suas respectivas cavernas.
Resultado das Eleições
"Raede Ceasare quae sunt Ceasaris", "Raede Populum quae sunt Populis"
E depois ainda há quem me pergunte o que é que eu faço aqui. Não sei! É que até nova ordem só tenho esta vida para viver, e o D. Sebastião nunca mais chega, e já lá vão 400 anos. Começo a suspeitar que os políticos portugueses são uma mutação. Em vez de estômago têm papo.
E depois ainda há quem me pergunte o que é que eu faço aqui. Não sei! É que até nova ordem só tenho esta vida para viver, e o D. Sebastião nunca mais chega, e já lá vão 400 anos. Começo a suspeitar que os políticos portugueses são uma mutação. Em vez de estômago têm papo.
domingo, outubro 09, 2005
Ainda o 3º Aniversário
Ainda a propósito destes 3 anos que passaram, queria deixar-me das inevitáveis queixinhas, e falar sobre aquilo que aprendi, e de que me lembro.
O primeiro mês foi a incógnita total. Quase não consegui dormir, entre a excitação de toda a vida pela frente para consolidar coisas, e o facto de estar a morar entre a calle Aragón (que tem 6 faixas de trânsito) e a Avenida Diagonal (outras tantas). Lembro-me que o casal que morava no andar de cima fazia amor pontualmente à uma e meia da manhã, quase como quem escova os dentes antes de dormir. Vinha-me sempre à memória uma canção da Joni Mitchell:" The Crazy Cries of Love".
Depois o princípio duma nova rotina, começando a dar aulas na escola Passatge. Começando a aprender a dar aulas. O aperto de ver o meu dinheiro a chegar ao fim, e a salvação que constituiu a minha entrada no departamento de cobranças de visa no Citibank, departamento de Portugal. A seguir o desencanto. Começa a guerra do Iraque, lá fora a população manifestava-se, e eu sentindo-me como um traidor a soldo do inimigo. Três semanas depois era despedido duma maneira ignóbil, como é uso e costume deste tipo de instituições “respeitáveis”. Quanto mais “respeitáveis”, mais ignóbeis os seus procedimentos.
Foi também o conhecer um novo universo e novas culturas: a catalã, a espanhola, e principalmente a latino-americana. A latino-americana por mão dos meus amigos argentinos, chilenos e venezuelanos. Constatar como Espanha mantém fortes laços culturais e económicos com as suas ex-colónias, e compará-lo com o “virar de costas” do estado português às suas. Ver como os actores, escritores, pintores e músicos espanhois são conhecidos e apreciados na América Latina, e vice-versa, constituindo assim um mercado cultural quase inesgotável.
Foi aproximar-me ao flamenco, que desde sempre me havia seduzido através de Paco de Lucia e do seu grupo, e descobrir todo um universo de cores e sons, muito mais aberto do que eu pensava.
Foi também aproximar-me à cultura marroquina, através dos meu alunos dum centro de jovens em Terrassa. Descobrir que afinal não somos tão distantes, nem na religião, nem na cultura. Descobrir de onde vieram certos ritmos portugueses. Descobrir que eles podem estar um pouco atrasados, mas que são iguais ao que nós éramos há 30 anos atrás.
Foi aprender que no bairro onde vivo, podem conviver diferentes etnias, religiões e culturas em relativa harmonia, unidos pela comum condição de imigrantes, e que é tão fácil ser simpático. E como este fenómeno está a mudar a face da cidade.
Muitas vezes me perguntei porque é que a Europa rejeita tão veemente a integração dessas novas culturas que vêm até ela, desaproveitando uma oportunidade de ouro para uma regeneração que se anuncia urgente e já tardia?
Nesse sentido, tudo parecia bem em Portugal a princípios dos anos 80, e que a pujante exuberância e creatividade das pessoas que recentemente tinham chegado das também recentes ex-colónias estava a contagiar beneficamente a sociedade portuguesa. Depois, veio a entrada na CEE, e os sucessivos governos cavaquistas, e as cores empalideceram, e se acinzentaram. Um amigo meu argentino disse-me que é o medo a crescer, que é o medo a mudar uma estrutura que de tão velha já cai aos bocados, e que desesperadamente se tenta manter a todo o custo. Mesmo a custo de esquecer velhas querelas de séculos e criar uma união.
O primeiro mês foi a incógnita total. Quase não consegui dormir, entre a excitação de toda a vida pela frente para consolidar coisas, e o facto de estar a morar entre a calle Aragón (que tem 6 faixas de trânsito) e a Avenida Diagonal (outras tantas). Lembro-me que o casal que morava no andar de cima fazia amor pontualmente à uma e meia da manhã, quase como quem escova os dentes antes de dormir. Vinha-me sempre à memória uma canção da Joni Mitchell:" The Crazy Cries of Love".
Depois o princípio duma nova rotina, começando a dar aulas na escola Passatge. Começando a aprender a dar aulas. O aperto de ver o meu dinheiro a chegar ao fim, e a salvação que constituiu a minha entrada no departamento de cobranças de visa no Citibank, departamento de Portugal. A seguir o desencanto. Começa a guerra do Iraque, lá fora a população manifestava-se, e eu sentindo-me como um traidor a soldo do inimigo. Três semanas depois era despedido duma maneira ignóbil, como é uso e costume deste tipo de instituições “respeitáveis”. Quanto mais “respeitáveis”, mais ignóbeis os seus procedimentos.
Foi também o conhecer um novo universo e novas culturas: a catalã, a espanhola, e principalmente a latino-americana. A latino-americana por mão dos meus amigos argentinos, chilenos e venezuelanos. Constatar como Espanha mantém fortes laços culturais e económicos com as suas ex-colónias, e compará-lo com o “virar de costas” do estado português às suas. Ver como os actores, escritores, pintores e músicos espanhois são conhecidos e apreciados na América Latina, e vice-versa, constituindo assim um mercado cultural quase inesgotável.
Foi aproximar-me ao flamenco, que desde sempre me havia seduzido através de Paco de Lucia e do seu grupo, e descobrir todo um universo de cores e sons, muito mais aberto do que eu pensava.
Foi também aproximar-me à cultura marroquina, através dos meu alunos dum centro de jovens em Terrassa. Descobrir que afinal não somos tão distantes, nem na religião, nem na cultura. Descobrir de onde vieram certos ritmos portugueses. Descobrir que eles podem estar um pouco atrasados, mas que são iguais ao que nós éramos há 30 anos atrás.
Foi aprender que no bairro onde vivo, podem conviver diferentes etnias, religiões e culturas em relativa harmonia, unidos pela comum condição de imigrantes, e que é tão fácil ser simpático. E como este fenómeno está a mudar a face da cidade.
Muitas vezes me perguntei porque é que a Europa rejeita tão veemente a integração dessas novas culturas que vêm até ela, desaproveitando uma oportunidade de ouro para uma regeneração que se anuncia urgente e já tardia?
Nesse sentido, tudo parecia bem em Portugal a princípios dos anos 80, e que a pujante exuberância e creatividade das pessoas que recentemente tinham chegado das também recentes ex-colónias estava a contagiar beneficamente a sociedade portuguesa. Depois, veio a entrada na CEE, e os sucessivos governos cavaquistas, e as cores empalideceram, e se acinzentaram. Um amigo meu argentino disse-me que é o medo a crescer, que é o medo a mudar uma estrutura que de tão velha já cai aos bocados, e que desesperadamente se tenta manter a todo o custo. Mesmo a custo de esquecer velhas querelas de séculos e criar uma união.
Os nossos poetas
Um amigo meu mandou-me isto por emilio. Que é que vos parece?
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não!
Jorge de Sena
Parece que o rapaz estava com maus fígados. No entanto......
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não!
Jorge de Sena
Parece que o rapaz estava com maus fígados. No entanto......
sexta-feira, setembro 30, 2005
Três anos
E passaram 3 anos. Na verdade não passaram assim tão rápido. Como dizia um slogan publicitário de uma marca de relógios "O tempo é o que se faz com ele". Passou-se muita coisa durante estes 3 anos. Desde a incerteza da aventura inicial, até à quase estabilidade dos dias de hoje, muita àgua passou debaixo da ponte. Desde o minúsculo quarto alugado em casa da Laia Cagigal, minha colega na escola Passatge, até ao minúsculo apartamento onde vivo.
Foi uma decisão difícil, de consequências dificeis. Mas ao mesmo tempo, quase uma decisão para a qual a própria vida me empurrou, e para a qual eu sabia que não havia volta atrás. E neste preciso momento, a volta atrás é algo perfeitamente inconcebível. E noto isso quando alguém me pergunta inusitadamente se eu neste momento voltaria a viver em Portugal. A minha reacção primeira é de surpresa total, porque é uma opção que me passa tanto pela cabeça como ir para padre, e como consequência a minha resposta imediata é negativa. E sai-me sem qualquer tipo de hesitação. Quer dizer isso que renego a 38 anos da minha vida? Não, em absoluto! Continuo a ser tão português como antes. Sou, e serei portador de uma herança cultural, e de uma experiência de vida que nenhuma condição apagará. Sou o que sou e quem sou, porque vivi o que vivi, onde vivi e com quem vivi. Renegar isso, seria renegar-me a mim mesmo, e tenho por experiência pessoal, que a maior certeza que existe na vida, além da morte, é que até que a morte chegue, terei que viver comigo mesmo, e é de toda a conveniência que essa convivência seja o mais pacífica possível. Não sei se me faço entender bem.
Mas foram 3 anos em que não tive que lutar diariamente pelo respeito que me é devido por ser pessoa, e muito raramente fui alvo do mau-humor dum qualquer imbecil que acordou mal-disposto, seja na rua, nas instituições ou no trabalho. Não tive que andar atrás de ninguém quase implorando que me paguem o meu trabalho nos prazos acordados (por vezes foram meses, mas já o sabia à partida, e pagaram-me quando eu o esperava). Em que vi o meu trabalho devidamente valorizado e respeitado por colegas e clientes, tendo estes sempre uma palavra amável, que nos ajuda sempre a acreditar cada vez mais em nós próprios, e a aligeirar a carga que o trabalho em si possa constituir. Foram 3 anos em que por me esforçar por ajudar-me, muita gente e instituições me ajudaram, em vez de me dificultarem o caminho. Foram 3 anos, ao fim dos quais posso dizer que me sinto uma melhor pessoa, muito longe da imagem dum tipo azedo, tristonho e desiludido que se punha diante dos olhos cada vez que pensava no meu futuro, quando vivia em Portugal. Ao mesmo tempo dá-me uma certa raiva, porque podia ter e ser isto tudo sem ter que sair do meu próprio país, bastava que o povo ao qual pertenço fosse um pouco mais inteligente emocionalmente. Desgraçadamente esse povo escolhe o caminho do "chico-espertismo" com todas as consequências que daí advêm, e que cada vez mais saltam à vista de quem queira ou não queira ver. Existe a firme crença que é mais fácil despejar a merda do nosso quintal para o quintal do vizinho, em vez de a limpar. Existe a firme crença que "trabalhar é bom para o preto", e que é mais fixe ser "muita esperto", enganar os outros, fugir aos impostos, e viver de esquemas que sempre tramam alguém. Um gajo tem que se safar (consultar anterior posta). Os efeitos desta "vocação" nacional tornaram-se palpáveis com os sucessivos anos de incêndios. Assim como a terra, os recursos sociais queimam-se, e tornam-se àridos e só alguns poucos beneficiaram alarvemente deles. E quando uma "mama" seca, inventa-se outra, até que todas sequem. E não é de agora, é de sempre. Só nos orgulhamos de ser portugueses através dos Carlos Lopes, das Rosas Motas, dos Campeonatos Europeus de Futebol, das Expos 98, e outros que tais, que nos puxam a lagriminha ao olho, porque parece sermos incapazes de nos orgulharmos individualmente de nós próprios. Falo, obviamente de uma maneira geral. Indentificamo-nos com os herois nacionais que nos apaziguam a consciência, e nos fazem sentir um pouco menos miseráveis.
Lá estou eu de novo no choradinho de sempre! Desculpem-me os leitores, mas é que ainda não consegui superar uma série de coisas, como ainda não consegui explicar aqui a ninguém esta relação amor-ódio com o meu país. E também me mete raiva não conseguir resolver isso, porque é muito difícil demarcar a fronteira onde acaba o amor e começa o ódio. Pelo menos não me é indiferente, e isso já é algo que me descansa. Como dizia o professor Agostinho da Silva, existem os povos "ou" e os povos "e", a maior parte dos povos são "isto ou aquilo", mas há povos como o português que são "isto e aquilo e várias coisas ao mesmo tempo". Provavelmente sofro eu também da tendência geral do ser humano de querer explicar o inexplicável, para me sentir mais seguro, para ter algo onde me agarrar.
Bom, mas seguindo com o dizia antes, uma das conquistas mais importantes, ou talvez a mais importante, foi o facto de eu ter conseguido reunir as condições para ter o meu filho Sérgio a viver aqui comigo, e ver que ele se sente contente e feliz com isso, apesar das muitas saudades que tem da mãe, do irmão, da família e dos amigos.
Passei estes 3 anos numa cidade maravilhosa, que dá gosto sair à rua e admirar os seus edifícios. Dá gosto passear pelo bairro, mesmo sendo o mais degradado da cidade, e entrar num café paquistanês, comprar um pão galego, beber um café italiano e comer uns pastelinhos marroquinos, tudo no mesmo sítio. Passear no centro da cidade ao domingo e ver as ruas cheias de gente, e pensar que a baixa de Lisboa nesse preciso momento estará deserta, apenas com alguns turistas para apreciar a sua glória, enquanto a típica família lisboeta se passeia pelo Colombo, ou pelo Vasco da Gama. Vivi 3 anos sem saber o que é o sigilo bancário, e que se eu (ou qualquer outro cidadão) se escusa a pagar uma multa, ou um imposto, ou seja o que for, o estado ou o governo regional aleija onde mais doi: na conta bancária. Vivo há 3 anos num sítio onde em vez de ir para longas bichas para comprar impressos, e outras tantas para os entregar, apenas faço uma chamada telefónica conserto dia e hora, e faço a minha declaração de impostos em 10 minutos. Onde o liceu onde estuda o meu filho me faz pagar apenas 100€ por livros e material escolar por todo o ano lectivo, e que desses 100€, o governo central comparticipa com 85€. É que os livros servem de um ano para o outro, e pertencem à escola. E com grande satisfação minha, esse liceu receberá o Premio Educação 2004, da Generalitat da Catalunya (o governo regional), dando assim um exemplo a toda a região, e quiçá ao resto do estado espanhol. Três anos ao fim dos quais, pude dar-me ao luxo de não trabalhar no mês de Agosto, e poder descansar, coisa que não me acontece há aproximadamente 20 anos. Lembro-me de tirar 3 semanas de férias em Dezembro de 1985, e outras 3 semanas em Janeiro de 1997.
Foram apenas 3 anos que passaram, mas foram 3 anos de àrdua luta, que finalmente começam a dar os seus frutos. Foi uma loucura, recomeçar tudo de novo quase com 40 anos. Ao passo que há 5 anos atrás, em Portugal, depois duma semi-ausência de 2 anos, fui obrigado a começar tudo de novo, como se nunca lá tivesse vivido e trabalhado durante pelo menos 20 anos. Começar de novo, por começar de novo, decidi começar de novo num sítio onde vale mais a pena. E efectivamente vale! Não é nenhum paraíso, nem esperava isso, apenas esperava poder viver uma vida normal, entre gente normal, num país normal. Muitas vezes tenho saudades da esquizofrenia colectiva do povo português, mas os custos são demasiado dolorosos.
Foi uma decisão difícil, de consequências dificeis. Mas ao mesmo tempo, quase uma decisão para a qual a própria vida me empurrou, e para a qual eu sabia que não havia volta atrás. E neste preciso momento, a volta atrás é algo perfeitamente inconcebível. E noto isso quando alguém me pergunta inusitadamente se eu neste momento voltaria a viver em Portugal. A minha reacção primeira é de surpresa total, porque é uma opção que me passa tanto pela cabeça como ir para padre, e como consequência a minha resposta imediata é negativa. E sai-me sem qualquer tipo de hesitação. Quer dizer isso que renego a 38 anos da minha vida? Não, em absoluto! Continuo a ser tão português como antes. Sou, e serei portador de uma herança cultural, e de uma experiência de vida que nenhuma condição apagará. Sou o que sou e quem sou, porque vivi o que vivi, onde vivi e com quem vivi. Renegar isso, seria renegar-me a mim mesmo, e tenho por experiência pessoal, que a maior certeza que existe na vida, além da morte, é que até que a morte chegue, terei que viver comigo mesmo, e é de toda a conveniência que essa convivência seja o mais pacífica possível. Não sei se me faço entender bem.
Mas foram 3 anos em que não tive que lutar diariamente pelo respeito que me é devido por ser pessoa, e muito raramente fui alvo do mau-humor dum qualquer imbecil que acordou mal-disposto, seja na rua, nas instituições ou no trabalho. Não tive que andar atrás de ninguém quase implorando que me paguem o meu trabalho nos prazos acordados (por vezes foram meses, mas já o sabia à partida, e pagaram-me quando eu o esperava). Em que vi o meu trabalho devidamente valorizado e respeitado por colegas e clientes, tendo estes sempre uma palavra amável, que nos ajuda sempre a acreditar cada vez mais em nós próprios, e a aligeirar a carga que o trabalho em si possa constituir. Foram 3 anos em que por me esforçar por ajudar-me, muita gente e instituições me ajudaram, em vez de me dificultarem o caminho. Foram 3 anos, ao fim dos quais posso dizer que me sinto uma melhor pessoa, muito longe da imagem dum tipo azedo, tristonho e desiludido que se punha diante dos olhos cada vez que pensava no meu futuro, quando vivia em Portugal. Ao mesmo tempo dá-me uma certa raiva, porque podia ter e ser isto tudo sem ter que sair do meu próprio país, bastava que o povo ao qual pertenço fosse um pouco mais inteligente emocionalmente. Desgraçadamente esse povo escolhe o caminho do "chico-espertismo" com todas as consequências que daí advêm, e que cada vez mais saltam à vista de quem queira ou não queira ver. Existe a firme crença que é mais fácil despejar a merda do nosso quintal para o quintal do vizinho, em vez de a limpar. Existe a firme crença que "trabalhar é bom para o preto", e que é mais fixe ser "muita esperto", enganar os outros, fugir aos impostos, e viver de esquemas que sempre tramam alguém. Um gajo tem que se safar (consultar anterior posta). Os efeitos desta "vocação" nacional tornaram-se palpáveis com os sucessivos anos de incêndios. Assim como a terra, os recursos sociais queimam-se, e tornam-se àridos e só alguns poucos beneficiaram alarvemente deles. E quando uma "mama" seca, inventa-se outra, até que todas sequem. E não é de agora, é de sempre. Só nos orgulhamos de ser portugueses através dos Carlos Lopes, das Rosas Motas, dos Campeonatos Europeus de Futebol, das Expos 98, e outros que tais, que nos puxam a lagriminha ao olho, porque parece sermos incapazes de nos orgulharmos individualmente de nós próprios. Falo, obviamente de uma maneira geral. Indentificamo-nos com os herois nacionais que nos apaziguam a consciência, e nos fazem sentir um pouco menos miseráveis.
Lá estou eu de novo no choradinho de sempre! Desculpem-me os leitores, mas é que ainda não consegui superar uma série de coisas, como ainda não consegui explicar aqui a ninguém esta relação amor-ódio com o meu país. E também me mete raiva não conseguir resolver isso, porque é muito difícil demarcar a fronteira onde acaba o amor e começa o ódio. Pelo menos não me é indiferente, e isso já é algo que me descansa. Como dizia o professor Agostinho da Silva, existem os povos "ou" e os povos "e", a maior parte dos povos são "isto ou aquilo", mas há povos como o português que são "isto e aquilo e várias coisas ao mesmo tempo". Provavelmente sofro eu também da tendência geral do ser humano de querer explicar o inexplicável, para me sentir mais seguro, para ter algo onde me agarrar.
Bom, mas seguindo com o dizia antes, uma das conquistas mais importantes, ou talvez a mais importante, foi o facto de eu ter conseguido reunir as condições para ter o meu filho Sérgio a viver aqui comigo, e ver que ele se sente contente e feliz com isso, apesar das muitas saudades que tem da mãe, do irmão, da família e dos amigos.
Passei estes 3 anos numa cidade maravilhosa, que dá gosto sair à rua e admirar os seus edifícios. Dá gosto passear pelo bairro, mesmo sendo o mais degradado da cidade, e entrar num café paquistanês, comprar um pão galego, beber um café italiano e comer uns pastelinhos marroquinos, tudo no mesmo sítio. Passear no centro da cidade ao domingo e ver as ruas cheias de gente, e pensar que a baixa de Lisboa nesse preciso momento estará deserta, apenas com alguns turistas para apreciar a sua glória, enquanto a típica família lisboeta se passeia pelo Colombo, ou pelo Vasco da Gama. Vivi 3 anos sem saber o que é o sigilo bancário, e que se eu (ou qualquer outro cidadão) se escusa a pagar uma multa, ou um imposto, ou seja o que for, o estado ou o governo regional aleija onde mais doi: na conta bancária. Vivo há 3 anos num sítio onde em vez de ir para longas bichas para comprar impressos, e outras tantas para os entregar, apenas faço uma chamada telefónica conserto dia e hora, e faço a minha declaração de impostos em 10 minutos. Onde o liceu onde estuda o meu filho me faz pagar apenas 100€ por livros e material escolar por todo o ano lectivo, e que desses 100€, o governo central comparticipa com 85€. É que os livros servem de um ano para o outro, e pertencem à escola. E com grande satisfação minha, esse liceu receberá o Premio Educação 2004, da Generalitat da Catalunya (o governo regional), dando assim um exemplo a toda a região, e quiçá ao resto do estado espanhol. Três anos ao fim dos quais, pude dar-me ao luxo de não trabalhar no mês de Agosto, e poder descansar, coisa que não me acontece há aproximadamente 20 anos. Lembro-me de tirar 3 semanas de férias em Dezembro de 1985, e outras 3 semanas em Janeiro de 1997.
Foram apenas 3 anos que passaram, mas foram 3 anos de àrdua luta, que finalmente começam a dar os seus frutos. Foi uma loucura, recomeçar tudo de novo quase com 40 anos. Ao passo que há 5 anos atrás, em Portugal, depois duma semi-ausência de 2 anos, fui obrigado a começar tudo de novo, como se nunca lá tivesse vivido e trabalhado durante pelo menos 20 anos. Começar de novo, por começar de novo, decidi começar de novo num sítio onde vale mais a pena. E efectivamente vale! Não é nenhum paraíso, nem esperava isso, apenas esperava poder viver uma vida normal, entre gente normal, num país normal. Muitas vezes tenho saudades da esquizofrenia colectiva do povo português, mas os custos são demasiado dolorosos.
sábado, setembro 24, 2005
Afinal a jiboia era outra!
Primeira gripalhada do pós-férias! Assim a modos como a dizer-me "já estamos no outono, deixa lá os chinelos, e calça-te alguma coisa que agasalhe mais os chispes". Pois é, e quem é que diz agora aos pés para se enfiarem dentro de tenis, sapatos ou botas, quando estão desde Maio, alegremente "laureando a pevide" ao léu, com os chinelitos? Sim, os mesmos chinelitos-de-enfiar-o-dedo que há 30 anos só os pobres e desleixados usavam, hoje são ostentados como uma peça de roupa indispensável ao mais fashion dos veraneantes. Aqui chamam a isso, favela-fashion. Ainda não percebi se é uma piada de mau-gosto, se é pura ignorância. Para mim, é o conforto.
Com esta idade, e ainda tenho dúvidas quanto aos sinais do corpo. A mandriice que me vinha atacando há uns dias, não era senão a costumeira gripite do equinócio, que sempre me apanha à traição no outono, ou na primavera. Naquelas alturas absurdas que nunca se sabe o que vestir, e que se resiste até à ultima na indumentária estival.
A propósito de sinais do corpo. Eu já tinha conhecimento do modus operandi sueco, Sandra. O que se passa é que o autor deste livro fala de nórdicos, mas refere-se a alemães, ingleses, belgas, holandeses e quejandos. Não me parece que os suecos, finlandeses e noruegueses estejam englobados nesta definição. Até porque a sua filosofia de vida, muito pouco tem a ver com eles. O autor do livro tenta explicar algo que é uma tendência natural da essência de cada povo. Os nórdicos de que ele fala, tem uma adoração pelo trabalho, pela organização, pela productividade, e pela eficiência. Valores, que de uma maneira geral, são um pouco estranhos aos povos mediterrâneos, mais peritos no ócio criativo, como a convivência, as artes, a gastronomia, e outras coisas que tais. Obviamente que tudo isto de uma maneira muito geral.
Mas disso já tinha falado bastante o nosso querido Agostinho da Silva, que embora estivesse certo no seu raciocínio, por vezes carecia de um certo realismo. É que o ser humano é bastante surpreendente, mas normalmente surpreende para o pior, muito mais do que para o melhor.
Pessoalmente, sempre achei que o esforço industrializante do Portugal pós-CEE era ridículo, pois tentar competir em quantidade com Alemanha, França, Reino Unido, e até com Espanha, era na melhor das hipóteses dar um passo muito maior do que a perna. Muito melhor teria sido apostar numa produção pequena, mas de qualidade, nomeadamente na agricultura (em vez disso, practicamente se aniquilou), e vendê-los como delicatessen, com denominação de origem, a exemplo do que fizeram os belgas e os suiços com o chocolate, que nem sequer é originário de lá. Muito melhor teria sido apostar por uma oferta turística de qualidade a preço acessível, e não deixar fazer o que fizeram com o Algarve, e pelos vistos, o que estão a fazer no litoral alentejano. Mas não, há sempre a tendência saloia de se pôr em bicos de pés, sem sacar proveito da nossa própria dimensão. Sou português, mas sinceramente, nunca entendi o meu povo. É-me extremamente difícil explicar aqui aos meus amigos o que é Portugal e os portugueses, ficam sempre sem perceber nada, e eu idem.
Mudando de assunto. Festas da Mercè. A festa maior da cidade de Barcelona, a que eu pela primeira vez me juntei, como convidado do grupo Bazar. Teve um gostinho especial tocar na Plaça Catalunya, mesmo em frente do edifício, onde há 2 anos e meio tive uma das piores experiências laborais da minha vida, trabalhando no departamento português das cobranças de contas visa do Citibank. O trabalho em si já era horroroso, mas uma sub-chefe gratuitamente déspota e arrogante, completava o quadro, como uma ginja em cima do bolo. Esta gente continua a acreditar que a productividade se consegue à custa de má-onda e intolerância. Nessa época, tinha iniciado recentemente a 2ª guerra do Golfo, e as manifestações na cidade eram diárias, e as concentrações na Plaça Catalunya, também. Sentia-me a trabalhar para o inimigo.
Com esta idade, e ainda tenho dúvidas quanto aos sinais do corpo. A mandriice que me vinha atacando há uns dias, não era senão a costumeira gripite do equinócio, que sempre me apanha à traição no outono, ou na primavera. Naquelas alturas absurdas que nunca se sabe o que vestir, e que se resiste até à ultima na indumentária estival.
A propósito de sinais do corpo. Eu já tinha conhecimento do modus operandi sueco, Sandra. O que se passa é que o autor deste livro fala de nórdicos, mas refere-se a alemães, ingleses, belgas, holandeses e quejandos. Não me parece que os suecos, finlandeses e noruegueses estejam englobados nesta definição. Até porque a sua filosofia de vida, muito pouco tem a ver com eles. O autor do livro tenta explicar algo que é uma tendência natural da essência de cada povo. Os nórdicos de que ele fala, tem uma adoração pelo trabalho, pela organização, pela productividade, e pela eficiência. Valores, que de uma maneira geral, são um pouco estranhos aos povos mediterrâneos, mais peritos no ócio criativo, como a convivência, as artes, a gastronomia, e outras coisas que tais. Obviamente que tudo isto de uma maneira muito geral.
Mas disso já tinha falado bastante o nosso querido Agostinho da Silva, que embora estivesse certo no seu raciocínio, por vezes carecia de um certo realismo. É que o ser humano é bastante surpreendente, mas normalmente surpreende para o pior, muito mais do que para o melhor.
Pessoalmente, sempre achei que o esforço industrializante do Portugal pós-CEE era ridículo, pois tentar competir em quantidade com Alemanha, França, Reino Unido, e até com Espanha, era na melhor das hipóteses dar um passo muito maior do que a perna. Muito melhor teria sido apostar numa produção pequena, mas de qualidade, nomeadamente na agricultura (em vez disso, practicamente se aniquilou), e vendê-los como delicatessen, com denominação de origem, a exemplo do que fizeram os belgas e os suiços com o chocolate, que nem sequer é originário de lá. Muito melhor teria sido apostar por uma oferta turística de qualidade a preço acessível, e não deixar fazer o que fizeram com o Algarve, e pelos vistos, o que estão a fazer no litoral alentejano. Mas não, há sempre a tendência saloia de se pôr em bicos de pés, sem sacar proveito da nossa própria dimensão. Sou português, mas sinceramente, nunca entendi o meu povo. É-me extremamente difícil explicar aqui aos meus amigos o que é Portugal e os portugueses, ficam sempre sem perceber nada, e eu idem.
Mudando de assunto. Festas da Mercè. A festa maior da cidade de Barcelona, a que eu pela primeira vez me juntei, como convidado do grupo Bazar. Teve um gostinho especial tocar na Plaça Catalunya, mesmo em frente do edifício, onde há 2 anos e meio tive uma das piores experiências laborais da minha vida, trabalhando no departamento português das cobranças de contas visa do Citibank. O trabalho em si já era horroroso, mas uma sub-chefe gratuitamente déspota e arrogante, completava o quadro, como uma ginja em cima do bolo. Esta gente continua a acreditar que a productividade se consegue à custa de má-onda e intolerância. Nessa época, tinha iniciado recentemente a 2ª guerra do Golfo, e as manifestações na cidade eram diárias, e as concentrações na Plaça Catalunya, também. Sentia-me a trabalhar para o inimigo.
quarta-feira, setembro 21, 2005
Preguiça Productiva
Afinal parece que a preguiça produz alguma coisa. Mais que não seja o encontro (ou reencontro, não percebi bem), entre 2 postantes habitués aqui da Burra. E é que para mim o encontro tertuliante entre pessoas é do melhor que há. Ainda que sejam 2 pessoas que infelizmente não conheço pessoalmente, são sempre benvindos.
Não sei se a propósito ou não, mas comprei um livro num alfarrabista por 1€, cujo título é "La Mediterrània i els bàrbars del Nord", e como subtítulo a jeito de explicação diz: "Els nòrdics ens han industrialitzat el món, propiciant una nova societat de l'oci on els esclaus seran les màquines. Ha arribat l'hora de tornar a l'ideal epicuri i humanista de la Mediterrània". O título chamou-me a atenção, por uma frase minha, constante em discussões filosofico-políticas com norte-europeus. Principalmente quando faziam comentários desagradáveis acerca dos povos do sul da Europa. Apenas lhes lembrava que historicamente está provado que do norte da Europa nunca veio nada realmente aportador e inovador para a humanidade.
Ainda sobre livros, ontem recebi uma prenda de valor incalculável para mim. Os meus queridos pais enviaram-me por correio, uma edição de 1974 das obras completas de Guerra Junqueiro. Delicio-me sempre ao ler os versos da "Velhice do Padre Eterno", infelizmente não há versão traduzida aqui deste lado, portanto faço o possível por partilhar a genialidade do poeta com os meus amigos daqui.
Nota final: hoje a jibóia transformou-se em dor de cabeça fulminante, e quase nem saí da cama! Nem consegui ler o Guerra Junqueiro.
Não sei se a propósito ou não, mas comprei um livro num alfarrabista por 1€, cujo título é "La Mediterrània i els bàrbars del Nord", e como subtítulo a jeito de explicação diz: "Els nòrdics ens han industrialitzat el món, propiciant una nova societat de l'oci on els esclaus seran les màquines. Ha arribat l'hora de tornar a l'ideal epicuri i humanista de la Mediterrània". O título chamou-me a atenção, por uma frase minha, constante em discussões filosofico-políticas com norte-europeus. Principalmente quando faziam comentários desagradáveis acerca dos povos do sul da Europa. Apenas lhes lembrava que historicamente está provado que do norte da Europa nunca veio nada realmente aportador e inovador para a humanidade.
Ainda sobre livros, ontem recebi uma prenda de valor incalculável para mim. Os meus queridos pais enviaram-me por correio, uma edição de 1974 das obras completas de Guerra Junqueiro. Delicio-me sempre ao ler os versos da "Velhice do Padre Eterno", infelizmente não há versão traduzida aqui deste lado, portanto faço o possível por partilhar a genialidade do poeta com os meus amigos daqui.
Nota final: hoje a jibóia transformou-se em dor de cabeça fulminante, e quase nem saí da cama! Nem consegui ler o Guerra Junqueiro.
terça-feira, setembro 20, 2005
A Preguiça
Ataca sempre de mansinho, como uma jibóia que se enrola à volta do pescoço. E sempre me apanha quando mais preciso de estar desperto e activo para afrontar o novo ano de trabalho. E quanto mais tento resistir, mais me aperta.
domingo, setembro 11, 2005
Diada de Catalunya
Hoje é o dia da Catalunha. Desde quando? Desde que no século XVIII, uma revolta de ceifeiros foi esmagado pelos espanhóis, e os converteu em mártires da nação catalã. É extraordinário o sentimento positivo deste pessoal ao celebrar uma derrota. Seria o mesmo que os portugueses celebrassem a data da batalha de Alcácer Quibir (Qsar El Kabir). A propósito, muitos dos meus alunos marroquinos são de lá.
E o trabalho continua, para bingo, espero!
E o trabalho continua, para bingo, espero!
sábado, agosto 06, 2005
Deixa arder que o meu pai é bombeiro!
30 incêndios descontrolados em Portugal, e o primeiro ministro de férias no Quénia! Estou sem palavras, e quase sem vontade de voltar nem que seja de férias! Tento preservar a imagem do Portugal que conheci outrora. Verdejante, esplendoroso, para mim o país mais bonito da Europa! Pelo menos seguirá existindo na minha memória. Glória eterna aos bombeiros, que além de serem as únicas pessoas que fazem alguma coisa para que o país não desapareça, parece-me que são os únicos voluntários da Europa. São pessoas normais e correntes que além de lutarem contra o fogo (que já é um inimigo titânico), lutam contra a negligência de um estado autista. São os portugueses verdadeiramente patriotas, que arriscam a própria vida para salvar o que é de todos, não arriscam uma carreira política.
sábado, julho 30, 2005
Férias
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Obrigado pela vossa atenção!
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Obrigado pela vossa atenção!
sábado, julho 23, 2005
The Return Of A Pensar Na Morte Da Bezerra
Ok! Sao 2 da manha, estao 34º e 95% de humidade no ar. O que equivale a dizer que estou a suar em bica, e a beber litros de àgua para repôr. Por isso nao sei se tenho as ideias muito claras, mas vamos a isto. Perdoem-me a falta de acentos, mas o computador onde escrevo nao é o meu, e o teclado nao tem til.
As reacçoes à ultima posta em que me pus a pensar na morte da bezerra, trouxeram outros elementos ao debate. Nomeadamente, o Rogério Charraz falou no elemento coerência, do ponto de vista de que deveriamos fazer aos outros o que gostamos que nos façam, e vice-versa. Ideia essa atribuída a um tal Jesus, que segundo reza a lenda, era um revolucionário na sua época. Parece-me bem que essas ideias ainda sao revolucionárias ainda hoje, pois conheço muito pouca gente capaz de pôr em práctica essa famosa coerência. Nem sequer falar em pensar ao de leve o facto de se deixarem pregar na cruz, como parece que aconteceu ao rapaz, pelo simples facto de ser coerente. Obviamente nao é necessário chegar a tais extremos, mas decididamente acho pouco edificante que a nossa sociedade ache perfeitamente normal a falta de coerência. E acha tao normal a falta de coerência, que julgo que o substantivo apropriado para esse sentimento, se chama demagogia. Ora isso todos sabemos (uns mais, outros menos) que é práctica comum entre a classe política, e que aparte de ser considerado uma coisa normal, é exibida com apanágio. Inclusivamente, (entre a classe política) quem melhor seja demagogo no seu discurso, melhor político será.
Mas deixemos isso, por agora (senao isto nao acaba nunca). Senso comum e coerência. O que é isto? Bem, quanto ao senso-comum, muito ainda haverá por dizer, mas sendo grosseiramente pragmático, vamos supôr que é o tal conjunto de valores que permite practicar a sabedoria, esta resultado de um conhecimento (ou experiência), e este resultado de informaçao absorvida. Agora, coerência? Sendo pragmaticamente grosseiro de novo, arrisco dizer que a coerência é o viver e actuar de acordo com o que nós próprios acreditamos, com os nossos valores, em definitivo, com o nosso senso-comum. E aqui começam as contradiçoes! Vamos lá a ver se nao me baralho.
Comecemos pelo senso-comum. O senso-comum (grosso modo) diz-nos o que está bem e o que está mal. Mas eu, que sou um egocêntrico, e este é o meu blog, e eu falo de mim aquilo que me apetecer, sem cargos de consciência. Como dizia, eu, já nao acredito nessa treta dos filmes de cobóis, e da biblia, dos bons e dos maus. Nem do ying e do yang, nem das forças brancas, nem das forças negras, e o diabo que os carregue! As coisas, as pessoas e os bichos nao sao bons nem maus, sao aquilo que sao, e ponto final! Acontece que temos uma resistência tremenda áquilo que nao entedemos, e como nao entedemos, vêm ao de cima as nossas inseguranças, consequência dos nossos medos. Por conseguinte, aquilo que nao entedemos e nao nos é agradável, é mau, e aquilo que sim, é bom. Vocês, nao sei, mas eu acho isto um bocado infantil. Nomeadamente, porque nos condiciona a vida de uma forma estúpida, pois toda a gente quer ser dos bons. E quando gente assim tem poder nas maos, a coisa pode inclusive ser perigosa! Isto para nao falar do facto de que, partindo do ponto de vista do mal e do bem, cada coisa tem o seu contrário. Como resultado, para os que se consideram bons, os maus sao maus, e para os considerados maus, sao os que se consideram bons é que sao maus, e vice-versa (nao sei me estou a explicar bem).
No entanto, acredito mais no senso-comum como uma inteligência instintiva, e parece-me mais lógico e aceitável dividir as coisas entre inteligente, e nao-inteligente, mas de uma maneira instintiva. E isso que quer dizer? Quer dizer que sabes que uma coisa deve ser feita de tal maneira, nao sabes explicar porquê, nem tens que explicar porquê, porque há certas coisas que nao nasceram para ter explicaçao. Mas acontece que desde os filósofos da antiguidade, que a malta tem a mania de andar sempre à procura do porquê de tudo, vai-se lá saber porquê. Inclusive, eu, estou para aqui à procura do porquê do senso-comum, da coerência, e do raio-que-me-parta, isto tudo culpa do Frank Zappa (glória a ti nas alturas), contradizendo-me de uma forma perfeitamente incoerente. Pois se eu acho que as coisas sao aquilo que sao, e ponto final, para que é que ando aqui a discutir o sexo dos anjos? (O calor está-me a desconcentrar)
Agora a coerência. A coerência gera lutas internas imensas, pois é muito bonito pregar o que seja, mas na base do "faz aquilo que eu digo, e nao faças aquilo que eu faço". Só mesmo grandes malucos é que fazem e vivem segundo aquilo que dizem. Ou entao nao se diz nada, para depois nao terem que se aguentar à jarda de viver segundo o discurso que tao efusivamente botaram. Instintivamente sempre tentei viver em coerência, e nao é tarefa fácil! Para começar, ganhei entre os meus amigos a reputaçao de ser um gajo fixe, mas completamente chanfrado, pois metia-me em alhadas tremendas, só pelo facto de agir de acordo com a minha consciência. E é verdade! Meti-me em alhadas tremendas, que me ajudaram imenso a crescer, tais foram as pantufadas que levei. Mas também é verdade, que se nao agisse de acordo com o que me ditava a minha consciência (ou senso-comum), instintivamente, sentiria como se fosse uma traiçao a mim próprio! Nunca ninguém entendeu isso! Toda a gente pensou que eu queria provar nao-sei-quê a nao-sei-quem. Cedo entendi, que por muito que se lute para ter o controle da própria vida, essa luta é inglória e mais do que isso, inútil. Pois cada um tem que viver a vida que tem para viver, e aproveitá-la ao máximo. Como aquela tirada brilhante atribuida ao John Lennon: "a vida é aquilo que te passa, enquanto fazes outros planos". Portanto, o melhor é estar atento ao que a vida nos reserva, e aproveitá-lo. E quando o sr. Murphy e a sua lei se lembram da malta, aguentar-se à bronca, que a coisa há-de melhorar, pois depois da tempestade vem sempre a bonança. Ou seja, viver seria quase como navegar: aproveitar o vento, a maré, e apontar numa dada direcçao. Pode ser que lá cheguemos, ou nao, mas o importante de tudo, no final, é gozar o passeio. Pois se vivemos obcecados com a chegada, olhamos para trás, e nao vimos nada. E isso deve ser muito triste!
Viver com senso-comum e em coerência? Que quer dizer isso? Viver de acordo com uma inteligência instintiva, da qual faz parte a máxima "nao faças aos outros aquilo que nao gostas que te façam"? Sim, mas nao como uma lei, ou uma conduta moral à qual estamos obrigados, mas por uma questao de inteligência, porque assim viveremos todos muito melhor. Porque pelo facto de se empurrar a merda que nos toca limpar, para cima do parceiro, estamos como estamos desde o princípio dos tempos. Tomem o exemplo dos mongoloides, que sao pessoas afáveis, sinceras, carinhosas, simpáticas e simples, por natureza, e aos quais, nós os normais, lhes atribuímos tao pouca inteligência. Onde é que está a inteligência, entao?
Vou bater com o focinho na palha, que já nao digo coisa com coisa. E quanto à bezerra, paz à sua alma!
As reacçoes à ultima posta em que me pus a pensar na morte da bezerra, trouxeram outros elementos ao debate. Nomeadamente, o Rogério Charraz falou no elemento coerência, do ponto de vista de que deveriamos fazer aos outros o que gostamos que nos façam, e vice-versa. Ideia essa atribuída a um tal Jesus, que segundo reza a lenda, era um revolucionário na sua época. Parece-me bem que essas ideias ainda sao revolucionárias ainda hoje, pois conheço muito pouca gente capaz de pôr em práctica essa famosa coerência. Nem sequer falar em pensar ao de leve o facto de se deixarem pregar na cruz, como parece que aconteceu ao rapaz, pelo simples facto de ser coerente. Obviamente nao é necessário chegar a tais extremos, mas decididamente acho pouco edificante que a nossa sociedade ache perfeitamente normal a falta de coerência. E acha tao normal a falta de coerência, que julgo que o substantivo apropriado para esse sentimento, se chama demagogia. Ora isso todos sabemos (uns mais, outros menos) que é práctica comum entre a classe política, e que aparte de ser considerado uma coisa normal, é exibida com apanágio. Inclusivamente, (entre a classe política) quem melhor seja demagogo no seu discurso, melhor político será.
Mas deixemos isso, por agora (senao isto nao acaba nunca). Senso comum e coerência. O que é isto? Bem, quanto ao senso-comum, muito ainda haverá por dizer, mas sendo grosseiramente pragmático, vamos supôr que é o tal conjunto de valores que permite practicar a sabedoria, esta resultado de um conhecimento (ou experiência), e este resultado de informaçao absorvida. Agora, coerência? Sendo pragmaticamente grosseiro de novo, arrisco dizer que a coerência é o viver e actuar de acordo com o que nós próprios acreditamos, com os nossos valores, em definitivo, com o nosso senso-comum. E aqui começam as contradiçoes! Vamos lá a ver se nao me baralho.
Comecemos pelo senso-comum. O senso-comum (grosso modo) diz-nos o que está bem e o que está mal. Mas eu, que sou um egocêntrico, e este é o meu blog, e eu falo de mim aquilo que me apetecer, sem cargos de consciência. Como dizia, eu, já nao acredito nessa treta dos filmes de cobóis, e da biblia, dos bons e dos maus. Nem do ying e do yang, nem das forças brancas, nem das forças negras, e o diabo que os carregue! As coisas, as pessoas e os bichos nao sao bons nem maus, sao aquilo que sao, e ponto final! Acontece que temos uma resistência tremenda áquilo que nao entedemos, e como nao entedemos, vêm ao de cima as nossas inseguranças, consequência dos nossos medos. Por conseguinte, aquilo que nao entedemos e nao nos é agradável, é mau, e aquilo que sim, é bom. Vocês, nao sei, mas eu acho isto um bocado infantil. Nomeadamente, porque nos condiciona a vida de uma forma estúpida, pois toda a gente quer ser dos bons. E quando gente assim tem poder nas maos, a coisa pode inclusive ser perigosa! Isto para nao falar do facto de que, partindo do ponto de vista do mal e do bem, cada coisa tem o seu contrário. Como resultado, para os que se consideram bons, os maus sao maus, e para os considerados maus, sao os que se consideram bons é que sao maus, e vice-versa (nao sei me estou a explicar bem).
No entanto, acredito mais no senso-comum como uma inteligência instintiva, e parece-me mais lógico e aceitável dividir as coisas entre inteligente, e nao-inteligente, mas de uma maneira instintiva. E isso que quer dizer? Quer dizer que sabes que uma coisa deve ser feita de tal maneira, nao sabes explicar porquê, nem tens que explicar porquê, porque há certas coisas que nao nasceram para ter explicaçao. Mas acontece que desde os filósofos da antiguidade, que a malta tem a mania de andar sempre à procura do porquê de tudo, vai-se lá saber porquê. Inclusive, eu, estou para aqui à procura do porquê do senso-comum, da coerência, e do raio-que-me-parta, isto tudo culpa do Frank Zappa (glória a ti nas alturas), contradizendo-me de uma forma perfeitamente incoerente. Pois se eu acho que as coisas sao aquilo que sao, e ponto final, para que é que ando aqui a discutir o sexo dos anjos? (O calor está-me a desconcentrar)
Agora a coerência. A coerência gera lutas internas imensas, pois é muito bonito pregar o que seja, mas na base do "faz aquilo que eu digo, e nao faças aquilo que eu faço". Só mesmo grandes malucos é que fazem e vivem segundo aquilo que dizem. Ou entao nao se diz nada, para depois nao terem que se aguentar à jarda de viver segundo o discurso que tao efusivamente botaram. Instintivamente sempre tentei viver em coerência, e nao é tarefa fácil! Para começar, ganhei entre os meus amigos a reputaçao de ser um gajo fixe, mas completamente chanfrado, pois metia-me em alhadas tremendas, só pelo facto de agir de acordo com a minha consciência. E é verdade! Meti-me em alhadas tremendas, que me ajudaram imenso a crescer, tais foram as pantufadas que levei. Mas também é verdade, que se nao agisse de acordo com o que me ditava a minha consciência (ou senso-comum), instintivamente, sentiria como se fosse uma traiçao a mim próprio! Nunca ninguém entendeu isso! Toda a gente pensou que eu queria provar nao-sei-quê a nao-sei-quem. Cedo entendi, que por muito que se lute para ter o controle da própria vida, essa luta é inglória e mais do que isso, inútil. Pois cada um tem que viver a vida que tem para viver, e aproveitá-la ao máximo. Como aquela tirada brilhante atribuida ao John Lennon: "a vida é aquilo que te passa, enquanto fazes outros planos". Portanto, o melhor é estar atento ao que a vida nos reserva, e aproveitá-lo. E quando o sr. Murphy e a sua lei se lembram da malta, aguentar-se à bronca, que a coisa há-de melhorar, pois depois da tempestade vem sempre a bonança. Ou seja, viver seria quase como navegar: aproveitar o vento, a maré, e apontar numa dada direcçao. Pode ser que lá cheguemos, ou nao, mas o importante de tudo, no final, é gozar o passeio. Pois se vivemos obcecados com a chegada, olhamos para trás, e nao vimos nada. E isso deve ser muito triste!
Viver com senso-comum e em coerência? Que quer dizer isso? Viver de acordo com uma inteligência instintiva, da qual faz parte a máxima "nao faças aos outros aquilo que nao gostas que te façam"? Sim, mas nao como uma lei, ou uma conduta moral à qual estamos obrigados, mas por uma questao de inteligência, porque assim viveremos todos muito melhor. Porque pelo facto de se empurrar a merda que nos toca limpar, para cima do parceiro, estamos como estamos desde o princípio dos tempos. Tomem o exemplo dos mongoloides, que sao pessoas afáveis, sinceras, carinhosas, simpáticas e simples, por natureza, e aos quais, nós os normais, lhes atribuímos tao pouca inteligência. Onde é que está a inteligência, entao?
Vou bater com o focinho na palha, que já nao digo coisa com coisa. E quanto à bezerra, paz à sua alma!
sábado, julho 16, 2005
quinta-feira, julho 14, 2005
A pensar na morte da bezerra strikes again
Os comentários (sempre benvindos, e agradecidos) acerca da “posta” lançada 3 postas abaixo, junto com a releitura da mesma, fez-me ainda debruçar mais sobre o assunto, a níveis de quase insanidade. E como estas coisas são demasiado grandes para uma pessoa aguentá-las sozinha, aguentem lá vocês também.
Partindo do princípio em que a sabedoria é conhecimento posto em práctica através do senso-comum, decidi tentar analisar e concretizar o mais objectivamente e pragmaticamente possível esta etérea substância da psicologia social. Vamos supôr que o senso-comum é um conjunto ético-moral de regras adquiridas tanto pela aprendizagem veiculada pela família, como pelas nossas experiências sociais ao longo dos anos. E como tal, o senso-comum torna-se também numa entidade reguladora do nosso comportamento. Torna-se a nossa consciência, o nosso "grilinho falante", aquilo que nos diz "o que está bem, e o que está mal". E aqui é que "a porca torce o rabo"! Chegado aqui, encontrei-me com várias e importantes questões, que passo a enumerar, por ordem desordenada:
– O senso-comum pode ou não ser isolado das nossas fobias e paranoias, que também condicionam o nosso comportamento?
- Utilizamos o senso-comum por conveniência? Para sentirmo-nos melhor connosco próprios? Para nos sentirmos melhores com os outros? Quando não estamos distraídos?
Sendo um mecanismo que nos diz “o que está bem, e o que está mal”, qual é a medida de cada um para isso? Ou há uma medida global?
Até que ponto é que “o que está bem” está mesmo bem, ou é um situação que nos faz sentir satisfatoriamente seguros? E até que ponto “o que está mal” é exactamente o contrário?
Levando em consideração a última questão, devo ter em conta que para que nos sintamos satisfatoriamente seguros, teríamos uma lógica e coerente tendência para fazer o bem, e com isso além de nos proporcionarmos bem-estar, consequentemente o proporcionaríamos aos outros. E com isso, se desencadearia uma reacção em cadeia de bem.estar geral. Então o que é que falha? Se organicamente temos tendência para o bem, porque é que o mal ganha cada vez mais terreno? Será porque cada um tem a sua concepção do bem, e só essa é válida, e não temos em consideração as concepções benfazejas dos outros?
Li uma vez nalgum sítio "se queres mudar o mundo, muda-te primeiro a ti próprio, e o mundo mudará". A princípio não entendi muito bem o sentido da frase, mas com o passar do tempo entendi uma série de coisas relacionadas com o assunto. Entendi que sempre buscamos factores externos para os nossos males internos, como quem procura colírio para uma unha encravada. Sentimo-nos bem em fazer alguma coisa para resolver o problema, ainda que essa coisa seja absurda e inútil. Porque fazer alguma coisa que possa desiquilibrar a delicada arquitectura psicológica que nos levou tantos anos a construir, é algo impensável e de consequências imprevisíveis. Além de que delegamos nos outros a responsabilidade, que não assumimos nós próprios, de ser felizes.
Então, se a nossa concepção do bem é passível de erro, se a maneira como a aplicamos, idem, essa pode ser uma das razões para a falência do senso-comum? E como consequência, a ausência de sabedoria? E isto sem analisar a nossa concepção do mal, e como o evitamos.
Tenho os neurónios à bofetada uns com os outros. Acho que vou para a praia pedir conselho aos peixes, pode ser que tenham aprendido algo com o Stº António.
Partindo do princípio em que a sabedoria é conhecimento posto em práctica através do senso-comum, decidi tentar analisar e concretizar o mais objectivamente e pragmaticamente possível esta etérea substância da psicologia social. Vamos supôr que o senso-comum é um conjunto ético-moral de regras adquiridas tanto pela aprendizagem veiculada pela família, como pelas nossas experiências sociais ao longo dos anos. E como tal, o senso-comum torna-se também numa entidade reguladora do nosso comportamento. Torna-se a nossa consciência, o nosso "grilinho falante", aquilo que nos diz "o que está bem, e o que está mal". E aqui é que "a porca torce o rabo"! Chegado aqui, encontrei-me com várias e importantes questões, que passo a enumerar, por ordem desordenada:
– O senso-comum pode ou não ser isolado das nossas fobias e paranoias, que também condicionam o nosso comportamento?
- Utilizamos o senso-comum por conveniência? Para sentirmo-nos melhor connosco próprios? Para nos sentirmos melhores com os outros? Quando não estamos distraídos?
Sendo um mecanismo que nos diz “o que está bem, e o que está mal”, qual é a medida de cada um para isso? Ou há uma medida global?
Até que ponto é que “o que está bem” está mesmo bem, ou é um situação que nos faz sentir satisfatoriamente seguros? E até que ponto “o que está mal” é exactamente o contrário?
Levando em consideração a última questão, devo ter em conta que para que nos sintamos satisfatoriamente seguros, teríamos uma lógica e coerente tendência para fazer o bem, e com isso além de nos proporcionarmos bem-estar, consequentemente o proporcionaríamos aos outros. E com isso, se desencadearia uma reacção em cadeia de bem.estar geral. Então o que é que falha? Se organicamente temos tendência para o bem, porque é que o mal ganha cada vez mais terreno? Será porque cada um tem a sua concepção do bem, e só essa é válida, e não temos em consideração as concepções benfazejas dos outros?
Li uma vez nalgum sítio "se queres mudar o mundo, muda-te primeiro a ti próprio, e o mundo mudará". A princípio não entendi muito bem o sentido da frase, mas com o passar do tempo entendi uma série de coisas relacionadas com o assunto. Entendi que sempre buscamos factores externos para os nossos males internos, como quem procura colírio para uma unha encravada. Sentimo-nos bem em fazer alguma coisa para resolver o problema, ainda que essa coisa seja absurda e inútil. Porque fazer alguma coisa que possa desiquilibrar a delicada arquitectura psicológica que nos levou tantos anos a construir, é algo impensável e de consequências imprevisíveis. Além de que delegamos nos outros a responsabilidade, que não assumimos nós próprios, de ser felizes.
Então, se a nossa concepção do bem é passível de erro, se a maneira como a aplicamos, idem, essa pode ser uma das razões para a falência do senso-comum? E como consequência, a ausência de sabedoria? E isto sem analisar a nossa concepção do mal, e como o evitamos.
Tenho os neurónios à bofetada uns com os outros. Acho que vou para a praia pedir conselho aos peixes, pode ser que tenham aprendido algo com o Stº António.
segunda-feira, julho 11, 2005
Coquetices
A Burra também é coquete, e como tal gosta de mudar de roupa, de vez em quando. Este lindo conjunto de verão, fresquinho e verdejante, serve também para acomodar um práctico "bolsinho" para pôr os links que merecem uma espreitadela. Como o modelo "primaveril" não continha tal adorno, achei por bem pô-lo, mais que não seja por agradecimento e retribuição aos blogs que tiveram o carinho suficiente para incluir a Burra nos seus links.
Beijocas, vou para a praia!
Beijocas, vou para a praia!
sexta-feira, julho 01, 2005
Patrícios
Os últimos 6 meses foram prolixos em visitas de amigos, familiares e conhecidos aqui por estas bandas. Quero agradecer a todos por me terem trazido um bocadinho de casa, e principalmente aos meus pais, por me terem trazido "a casa". Por cá passaram o João Afonso, o Moz Carrapa e o Paulo Borges, os quais me presentearam com um dia de petiscada, com concerto de alta qualidade, no final do dia (o trabalho do João está cada vez melhor e recomenda-se vivamente). Passaram também os meus companheiros do Pateo das Cantigas, onde travámos duras batalhas contra o tempo e contra o electrão rebelde, em prol do jingle publicitário, aos quais devo uma noite de copofonia e boa conversa. Um abraço grande ao Rui Miguel, ao Artur Santos, e aos Pedros. Passou também o Vasco Sousa, que além de me ter presenteado com a oportunidade primeira de ver ao vivo um magnífico concerto da Mariza, deu-me também a maravilha de ver o Palau de la Música Catalana por dentro. E, senhores, como canta esta mulher! Arrepiou-me todo, e fez-me emocionar, a malvada! Foi também a oportunidade de rever o João Pedro, e mais uma vez..............petiscada e boa conversa! E, obviamente, os meus pais que os 5 dias que aqui estiveram foram demasiado curtos para matar as saudades de quase um ano sem nos vermos. São as coisas que nos fazem sentir mais vivos!
A pensar na morte da bezerra
Já quase no final do 3º disco da trilogia “Joe’s Garage”, Frank Zappa (glória a ti nas alturas), pôs uma rapariga a dizer um texto que começava mais ou menos assim: “informação não é conhecimento, conhecimento não é sabedoria, sabedoria não é beleza, beleza não é amor...” e continuava. E realmente todos estes anos tenho pensado na extraordinária capacidade que o ser humano tem para armazenar informação. Mas será que ao armazenar toda essa informação, essa se converte automaticamente em conhecimento? Partindo do princípio que temos por natureza uma mente catalogante e "carimbante", inclino-me a pensar que sim, que podemos organizar essa informação de forma a constituir algo chamado conhecimento. E a sabedoria? É apenas o substantivo que designa o saber muito? Saber muito acerca de quê?
Pratico um desporto solitário sempre que posso, e chama-se pensar. Pensar sobre quê? Sobre tudo, mais que não seja para manter o neurónio com um corpinho danone, já que sou incapaz de fazê-lo ao resto do corpo. Bom, mas resumindo. Numa dessas sessões de ginásio pensante, debrucei-me sobre a profundidade dessa frase do Zappa. E uma conclusão que cheguei (absolutamente passível de erro, como todas as conclusões), é que a sabedoria é muito mais do que um simples estado em que uma pessoa é detentora dum qualquer conhecimento. A sabedoria seria a maneira como esse conhecimento é aplicado e practicado, necessitando para o efeito de uma componente importantíssima, que nos dias que correm está em baixa vertiginosa: o senso comum. Pior ainda, o senso comum, apesar de ser algo tipicamente humano, escapa completamente à tendência também tipicamente humana de quantizar, medir e catalogar, o que representa um contra-senso. Qual a diferença então entre conhecimento e sabedoria? Um exemplo práctico: foi necessário uma quantidade absurda de conhecimento para fabricar a bomba atómica, nenhuma sabedoria para lançá-la sobre Hiroshima, e nenhuma explicação lógica, inteligente e minimamente plausível para lançá-la sobre Nagasaki.
Então a componente senso-comum é de vital importância para que a sabedoria funcione. Mas, e o que é o senso-comum? Um conjunto imaginário de regras? Um código de conduta? Um conjunto mais ou menos inconsciente de valores para determinar o que está bem ou o que está mal?
Bom de qualquer das maneiras, pode ser discutível, e até anedótico, inútil, ridículo e absurdo discutir a essência do senso-comum, quando o mesmo está em vias de extinção. E, ao abrigo da teoria acima descrita, com ele extinguir-se a sabedoria. Pelo menos a sabedoria segundo estes parâmetros. A sabedoria segundo a quantidade de coisas que um indivíduo sabe, essa segue, mas se esse mesmo indivíduo não sabe o que fazer com isso, de pouca utilidade tem. Em que é que ficamos?
P.S.- Aqui não se censura os comentários de ninguém, por mais absurdos que sejam.
Pratico um desporto solitário sempre que posso, e chama-se pensar. Pensar sobre quê? Sobre tudo, mais que não seja para manter o neurónio com um corpinho danone, já que sou incapaz de fazê-lo ao resto do corpo. Bom, mas resumindo. Numa dessas sessões de ginásio pensante, debrucei-me sobre a profundidade dessa frase do Zappa. E uma conclusão que cheguei (absolutamente passível de erro, como todas as conclusões), é que a sabedoria é muito mais do que um simples estado em que uma pessoa é detentora dum qualquer conhecimento. A sabedoria seria a maneira como esse conhecimento é aplicado e practicado, necessitando para o efeito de uma componente importantíssima, que nos dias que correm está em baixa vertiginosa: o senso comum. Pior ainda, o senso comum, apesar de ser algo tipicamente humano, escapa completamente à tendência também tipicamente humana de quantizar, medir e catalogar, o que representa um contra-senso. Qual a diferença então entre conhecimento e sabedoria? Um exemplo práctico: foi necessário uma quantidade absurda de conhecimento para fabricar a bomba atómica, nenhuma sabedoria para lançá-la sobre Hiroshima, e nenhuma explicação lógica, inteligente e minimamente plausível para lançá-la sobre Nagasaki.
Então a componente senso-comum é de vital importância para que a sabedoria funcione. Mas, e o que é o senso-comum? Um conjunto imaginário de regras? Um código de conduta? Um conjunto mais ou menos inconsciente de valores para determinar o que está bem ou o que está mal?
Bom de qualquer das maneiras, pode ser discutível, e até anedótico, inútil, ridículo e absurdo discutir a essência do senso-comum, quando o mesmo está em vias de extinção. E, ao abrigo da teoria acima descrita, com ele extinguir-se a sabedoria. Pelo menos a sabedoria segundo estes parâmetros. A sabedoria segundo a quantidade de coisas que um indivíduo sabe, essa segue, mas se esse mesmo indivíduo não sabe o que fazer com isso, de pouca utilidade tem. Em que é que ficamos?
P.S.- Aqui não se censura os comentários de ninguém, por mais absurdos que sejam.
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